Na passada semana, Sampaio e Soares vieram a público defender, mais ou menos abertamente, a necessidade de o PS renovar a sua maioria absoluta nas eleições deste ano. Na tónica a que todos os políticos do sistema nos têm habituado, essas duas figuras centrais da política de direita dos últimos 30 anos frisaram a famosa equação “necessidade de resolver os problemas estruturais do país + necessidade de estabilidade institucional = maioria absoluta para Sócrates”.
De facto, as duas parcelas da soma em questão merecem ser desdobradas e compreendidas no seu sumo. Só dessa forma se pode perceber o porquê da actuação desastrosa do PSD, do apoio mais ou menos explícito dos ideólogos do sistema à renovação dessa maioria, ou do apoio do grande capital ao governo PS/Sócrates.
Começando pela primeira, pode-se afirmar que uma linha de argumentação tem sido transversal a todos os comentadores e ideólogos de serviço: pega-se, em primeiro lugar, numa área específica (por exemplo, a educação ou a saúde, muito raramente o trabalho) para dizer que aí existem graves problemas. Em segundo lugar, para além de colocarem o discurso num patamar vago em relação aos reais problemas que os trabalhadores e o povo sofrem, envereda-se na importância de o governo empreender reformas. Mais uma vez, nunca se diz em que consistem as reformas, mas afirma-se sempre que as reformas que este governo tem levado a cabo seriam boas e inevitáveis. As críticas, se é que se podem chamar assim, que surgem nos media dominantes nunca incidem sobre a natureza das reformas mas sobre a necessidade de, por um lado, o governo ir ainda mais longe nessas ditas “reformas” e, por outro lado, “saber comunicar” melhor as medidas a implementar.
Deste modo, governar seria um acto puramente técnico e administrativo e onde o receituário neoliberal de destruição de conquistas históricas dos trabalhadores surge como pretensamente inevitável e necessária. Portanto, existe um objectivo e poderoso exercício de justificação e legitimação política e ideológica deste governo, no momento, o mais eficiente e competente executor das políticas que favorecem o grande português e internacional.
Sobre a segunda parcela referida acima – a suposta “necessidade de estabilidade institucional”, tem-se assistido a um argumento que parte do pressuposto da anterior parcela: o governo PS/Sócrates em si mesmo não seria mau para os interesses do país e dos portugueses mas teria de reunir condições políticas para governar e aplicar o seu programa político. As coisas assim apresentadas significam a reprodução de um velho argumento de classe (que nunca se apresenta como tal): “deixem-se de contestações e de críticas”; “trabalhem e deixem-se de politiquices e de estar sempre a criticar quem faz o melhor por todos”!! No fundo, esta questão da estabilidade institucional – que, para o grande capital, exige um país limpo e expurgado de contestação social e sindical – relaciona-se, de um lado, com a “crise” da direita oficial (PSD e CDS) e o correlativo sucesso da aplicação do neoliberalismo pela actual direita no poder (o PS) e, de outro lado, com a crise económica estrutural que o capitalismo hoje atravessa.
Assim, face a uma conjuntura de crise estrutural do capitalismo, e face ao avanço da luta popular, o grande capital efectua uma fuga para a frente: incrementar as políticas neoliberais que se estendem em domínios como a privatização da educação, da saúde e da segurança social e a aposta na deterioração dos direitos laborais tal como um vem expresso no novo Código do Trabalho. Evidentemente, o grande capital sabe que também se sustenta no Estado: nas políticas do governo, mas também no papel do Estado como bombeiro de empresas e bancos falidos ou metidos em falcatruas.
É desta raiz de classe que surgem os argumentos em defesa da maioria absoluta para Sócrates e seus compinchas. O capital conta com este governo para reproduzir a sua dominação de classe e a burguesia sabe perfeitamente que neste momento um governo com maioria absoluta (a somar à presença de Cavaco na presidência da república) garante uma aprovação legislativa das políticas que satisfazem os seus interesses e os seus lucros chorudos.
Evidentemente, o PCP e os trabalhadores cá estarão para dar combate ao grande capital e ao seu governo. Tanto eleitoralmente como na luta de massas, só o esclarecimento e a intervenção organizada e colectiva dos trabalhadores na luta pelos seus direitos legítimos, com o PCP como sua vanguarda, fará recuar e derrotar as forças do capital. Vamos à luta!