Já está à venda o meu livro “Fascismo e Estado Novo: uma aproximação ao tema”. Ao longo dos próximos dias colocaremos vários pequenos trechos da obra. O livro pode ser adquirido aqui, na editora Apenas Livros.
A semelhança estrutural e processual entre o fascismo português e o italiano e alemão
«Existe uma profunda semelhança estrutural e processual – portanto em termos de substância e não se atendendo a questões estr(e)itamente quantitativas, ou seja, de grau – entre a PVDE/PIDE/DGS e a polícia política alemã. (…)
Que a polícia política portuguesa tenha prendido, torturado ou assassinado em patamares numéricos inferiores, não apaga o que acima designamos por semelhança estrutural e processual entre ambas. Mais uma vez trata-se de dar inteligibilidade a diferenças de grau e não de natureza entre o regime do Estado Novo e o regime hitleriano. (…)
Por tudo o que foi exposto, as palavras de Victor de Sá sobre a polícia política portuguesa fazem todo o sentido: «a polícia de segurança assume poderes discricionários e infiltra-se em todos os sectores da vida nacional. É o poder invisível que se sobrepõe a todos os poderes» (Sá, 1989, p.19)
Nesse sentido, não parece ter sustentação a tese que, entre outros autores, a historiadora Irene Pimentel vem defendendo de que o Exército seria a principal razão para que o regime do Estado Novo tenha durado tanto tempo. Nas palavras da investigadora, «quem tem as armas, quem tem o monopólio da violência, é que dirige, e não é por acaso que o regime acabou através do Exército» (Pimentel, 2007, p.6) [itálicos nossos]. Este argumento tinha já sido exposto por Poulantzas numa outra obra sua onde procede à revisão – pode-se mesmo dizer atabalhoada e ao sabor das modas de então – de várias das suas teses: «nos regimes que estamos a lidar aqui», ou seja, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, «as forças armadas tornam-se no aparelho dominante do Estado» (Poulantzas, 1975, p.114). Esta tese da supremacia das forças armadas no fascismo não faz sentido, conquanto este tenha sido uma das instituições mais poderosas nesses regimes políticos. Do nosso ponto de vista, não há um monopólio da violência por parte do exército, pois este não só é partilhado pela polícia, para uso interno, mas também pela polícia política que tem a legitimidade atribuída pelas altas instâncias do Estado de o utilizar sobre todo o corpo da sociedade e no próprio aparelho de Estado, inclusive nas forças armadas. Por outro lado, as forças armadas não tinham a direcção política do uso da violência. Tal era pertença – esta sim monopolizada – do Governo e, especialmente, do Presidente do Conselho, dos Ministros da Guerra (a partir de 1945, da Defesa) e do Interior. A própria polícia política tinha poderes de uso da força bem mais discricionários e autónomos do que as forças armadas.
Na prática, os dirigentes políticos fascistas sempre se mostraram com uma clara predominância e hegemonia política face às forças armadas. A coesão entre o Executivo, o exército e a polícia política formaram o triângulo de poder do Estado Novo. No topo da hierarquia do Estado encontrava-se o Presidente do Conselho de Ministros, secundado por um Executivo e um aparelho repressor sustentado na polícia política suficientemente fiéis e coesos para controlarem politicamente o exército.


