Motivado por compromissos de variada ordem, não tive oportunidade de actualizar regularmente este espaço. Contudo, espero resgatar a peridiciodade anterior. Assim, deixo-vos com um pequeno artigo publicado há uns dias no site O Diário.info acerca dos 50 anos da publicação do romance “Seara de Vento”.

Nos 50 anos de “Seara de Vento” – o seu valor intemporal

Manuel da Fonseca, um dos maiores nomes literários do Alentejo, publicou o romance “Seara de Vento” em 1958. Inicialmente pensado para se chamar “Tempo de Lobos”, o autor decidiu modificar o título após conversa com o escritor Aquilino Ribeiro – precisamente quando este ia publicar “Quando os lobos uivam”.

“Seara de Vento” é, sem dúvida, uma das obras literárias portuguesas mais bem conseguidas do século XX. O seu valor está longe de ser estritamente documental ou de mera erudição para os que estudam as correntes literárias mais importantes da escrita ficcional portuguesa do século passado. Na verdade, “Seara de Vento” vale, em simultâneo, pela sua temporalidade e pela sua intemporalidade. Por outras palavras, em Seara de Vento, Manuel da Fonseca descreve um episódio ocorrido em 1932, numa aldeia do concelho de Beja. O assassinato de António Dias Matos, operário agrícola, pela GNR. Não iremos entrar nos detalhes do facto histórico real, pois ele é a demonstração viva da coligação entre o Estado fascista e os grandes latifundiários contra a dignidade do operariado agrícola alentejano. Este cenário de repressão, fome, humilhação e privação nos campos do Sul de Portugal é exemplarmente retratado por Manuel da Fonseca. Contudo, não se pense que se trata de um mero pincelar naturalista do panorama existente na época. Manuel da Fonseca trabalha a palavra com mestria, criando tipos psicológicos interessantíssimos. Neste quadro avulta a sogra de António (na narrativa, o Palma), Amanda Carrusca: símbolo de uma saudável desconfiança em relação aos senhores da terra e de uma dignidade humana profunda contra a sua condição de profunda privação e miséria. Mas Amanda Carrusca – provavelmente, a personagem com o perfil psicológico mais Manuel da Fonsecatrabalhado – não é apenas o símbolo do Alentejo do início dos anos 30, o Alentejo da fome e da miséria. Ela é a simbologia de um operariado que ainda não tinha aprendido a confiar em si mesmo na luta contra o regime fascista. Ao contrário, a neta Mariana é a porta-voz de um dado novo nos campos alentejanos: as “reuniões às escondidas na vila”. Decifrando, a entrada em cena do PCP na vida social e política do operariado alentejano. O mesmo é dizer, a entrada em cena da necessidade da passagem de acções de luta voluntaristas e individuais para a luta colectiva de massas e para a ligação indissolúvel entre o povo trabalhador da região e uma organização revolucionária. Nas últimas páginas, a própria personagem Amanda Carrusca assume esta nova etapa na vida da região aquando do cerco final da GNR a casa de António e grita aos operários agrícolas que contestavam a repressão policial: “digam à minha neta que ela tem razão! Um homem sozinho não vale nada!”.

Esta é a grande lição de intemporalidade conferida por Manuel da Fonseca à sua obra – uma obra, diga-se, perversa e marginalmente esquecida pelos media de referência controlados pelo grande capital. O condenar dessa obra magna ao esquecimento pela intelectualidade burguesa – ignorante, pretensiosa e arrogante – reflecte precisamente o carácter temporal/histórico e simultaneamente intemporal de “Seara de Vento”. O carácterSeara de Vento temporal e histórico porque, por um lado, é: a descrição da ignomínia do regime fascista que vigorou em Portugal durante 48 anos; o retrato da barbárie de um regime que perseguiu, prendeu, torturou e matou operários (e comunistas) que lutavam pelos seus direitos mais básicos e pela democracia. Por outro lado, a condição intemporal da luta popular contra a opressão e a exploração; a condição intemporal dos homens e mulheres simples que não hesitam em se mobilizar para cortar os seus grilhões; a condição intemporal de que a luta de classes e o forjar da luta colectiva, em parceria com uma organização política revolucionária, são elementos inescapáveis da vida social nas sociedades marcadas pelos antagonismos de classes. No fundo, porque na seara dos confrontos de classe o vento mais forte, mais autêntico e mais puro é o do povo em luta pelo socialismo.