Abril 2008


«Aprendi mais sobre a sociedade burguesa, o capitalismo, etc.,

lendo as novelas de Balzac que com o conjunto de historiadores,

economistas e outros investigadores da sua época»

Engels

 

A luta em defesa do legado de Abril, que em poucas palavras poderíamos definir como a possibilidade de o povo e os trabalhadores tomarem o destino nas suas mãos, é importantíssima. A defesa de direitos democráticos essenciais que se vêem hoje ameaçados e cada vez mais citados como pró-forma em discursos mais ou menos presidenciáveis, é um aspecto vital para a defesa de direitos laborais dos trabalhadores. É a ligação entre a luta reivindicativa por melhores salários, em defesa do posto de trabalho, contra a crescente precariedade e a luta em defesa da liberdade (efectiva) de organização sindical que faz crescer nos trabalhadores a consciência de que a melhoria das suas condições de vida só pode passar por uma nova política, uma política que rompa com o que PS e PSD sucessivamente vão cozinhando em nítido benefício dos grandes bancos e dos grandes grupos económicos. O fortalecimento da luta contra a ofensiva de precarização/vulnerabilização das relações de trabalho e a luta em defesa da Constituição e dos direitos democráticos que encerra ajudará a pavimentar o caminho rumo a uma nova sociedade. Outubro ainda vai longe, mas (a) lá chegaremos.

O 24 de Abril…
A forma fascista de organização da sociedade e do Estado resultou na repressão brutal dos trabalhadores que se manifestavam contra o regime ou por melhores condições de vida e melhores salários. A repressão estendeu-se sobretudo ao PCP através da perseguição, da prisão, da tortura e recorrendo mesmo ao assassinato (relembro apenas os casos de Dias Coelho, Catarina Eufémia, Germano Vidigal, Alex, Adângio, Bento Gonçalves, etc.). Registaram-se pelo menos 96 assassinatos políticos, fora os massacres ocorridos na guerra colonial. Ao mesmo tempo, só nos primeiros 25 anos do regime ocorreram mais de 20 mil prisões políticas. Um regime que condenou gerações de portugueses à exploração mais despudorada, à miséria, ao analfabetismo, ao obscurantismo. Um regime sanguinário que não hesitou em oprimir barbaramente os povos de Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé e Cabo Verde concretizando a rapina das riquezas destes povos em prol de um punhado de grandes capitalistas. Um regime que entregou milhares e milhares de jovens portugueses a morrer numa guerra contra povos irmãos. Por tudo isto, um regime com tais características só pode ser um regime fascista.
 
…e o 25 de Abril
O 25 de Abril (e toda dinâmica popular e revolucionária subsequente) é naturalmente o acontecimento maior da História portuguesa contemporânea. Iniciado como um golpe de oficiais democratas e progressistas contra o regime, logo na manhã de 25 de Abril o golpe se transforma em revolução. Pela participação criativa, alegre e activa das massas populares no processo revolucionário e democrático. Pelas transformações avançadas que o povo português almejou construir. O 25 de Abril também foi uma revolução porque teve como um actor político de primeira importância o PCP, que em conjunto com os trabalhadores portugueses e o MFA, foram a principal força motora da revolução portuguesa.
 
O que houve de mais libertador com a Revolução de 25 de Abril de 1974:
1) a conquista das liberdades (liberdade de reunião e manifestação; liberdade dos partidos políticos; liberdade sindical; conquista do direito de greve; a liberdade de imprensa); 2) o melhoramento das condições de vida da classe operária e do povo (o estabelecimento do salário mínimo, dos subsídios de férias, alimentação, pensões de invalidez, de desemprego, etc.); 3) o controlo operário e a gestão dos trabalhadores em fábricas alvo de sabotagem do patronato; 4) as nacionalizações (da banca, estaleiros, recursos energéticos, luz, transportes, companhias de cimentos, petroquímicas, etc.); 5) a Reforma Agrária (com a constituição de mais de 400 UCP’s e cooperativas e com o emprego de dezenas de milhares de trabalhadores, com óbvios efeitos no aumento da área cultivada e da produção e na queda acentuada do desemprego na região); 6) o processo de descolonização e o fim da guerra colonial; 7) a existência de uma política de independência nacional (algo de inédito em centenas de anos da História portuguesa, na medida em que a submissão e vassalagem aos ditames de potências imperialistas estrangeiras foi interrompida, sendo hoje reatada descaradamente pelos governos PS e PSD); 8 ) a consagração de importantes direitos sociais, económicos e culturais das massas (ao nível da educação, saúde, habitação, segurança social, acesso à justiça, etc.).
 
Nos dias de hoje, defender Abril, aprofundar Abril, construir Abril
Hoje, o governo PS/Sócrates como o mais fiel defensor dos interesses das classes dominantes – as mesmas que sustentaram, apoiaram e beneficiaram directamente com o regime fascista de Salazar e Caetano – quer destruir Abril e todo o seu legado. A revisão para pior do Código do Trabalho, a sujeição da soberania nacional aos interesses do grande capital europeu, a destruição dos serviços públicos de saúde e de educação, a política laboral de precarizar e vulnerabilizar as jovens gerações de trabalhadores, a imposição de medidas de tipo securitário com o intuito de criminalizar a luta operária e popular, o apoio às invasões imperialistas do Iraque e do Afeganistão pelo imperialismo norte-americano ou os favorecimentos fiscais escandalosos aos grandes grupos económicos são apenas alguns exemplos de como este governo prossegue uma política de direita contrária aos ideais mais profundos de Abril. Continuar a luta contra o governo PS/Sócrates é lutar pela liberdade e pela democracia, cortando pela raiz as noções demagógicas e antipopulares que vêem na democracia o mero acto formal de colocar uma cruz no boletim de voto. Democracia de Abril é ampliar os direitos dos trabalhadores, do povo e dos jovens, é construir uma sociedade mais justa, é permitir que quem trabalha possa ter voz na tomada e na execução de decisões do país, é construir um mundo de paz e de justiça social, onde o povo seja o sujeito da História! Abril é luta, resistência, afirmação de um projecto que tem raízes nas lutas de gerações e gerações. Abril é também um projecto com raízes no futuro, numa sociedade construída pelo povo e para o povo. Uma sociedade nova. No fundo, a sociedade de Abril que nos cabe construir!

Artigo de Pedro Guerreiro, deputado europeu do PCP, publicado no jornal Avante e no site ODiário.info.

«Era maravilha de veer, que tanto esforço dava Deos neles, (…) que os castelos que os antigos reis, (…) nom podiam tomar, os poboos meúdos, mal armados e sem capitam, com os ventres ao sol, ante de meo dia os filhavam por força.»

Fernão Lopes
in Crónica d’El Rei D. João I

Tendo consciência do que o 25 de Abril significa para o povo português, o PS, mistificadoramente, agendou para a próxima semana, na Assembleia da República, a votação da ratificação do tratado para a União Europeia.

De forma cínica e hipócrita, o PS, mas igualmente o PSD e o CDS-PP, procuram utilizar as comemorações do 34.º aniversário da Revolução de Abril – momento da mais ampla emancipação e de exaltante afirmação da soberania e independência nacionais do povo português – para tentar dissimular as suas profundas responsabilidades na ratificação de um tratado da UE que frontalmente desrespeita e atenta contra a soberania e independência nacionais.

Recorde-se que estes agiram com igual despudor aquando da 6.ª revisão da Constituição da República Portuguesa, votada a 23 de Abril de 2004, dois dias antes do 30.º aniversário da Revolução dos Cravos.

Nessa indigna e vergonhosa revisão constitucional, como foi então firmemente denunciado, PS, PSD e CDS-PP inseriram no artigo 8.º o reconhecimento da «primazia» do direito comunitário sobre a Constituição da República Portuguesa, violando o seu espírito e a sua letra. Malgrado o seu desejo, a «constituição europeia» – que explicitava no seu articulado tal inaceitável princípio -, foi amplamente rejeitada pelos povos francês e holandês em 2005.

Um processo de classe

Em flagrante desrespeito da vontade expressa por estes povos, as forças que estão no cerne da integração capitalista europeia procuram impor de novo o conteúdo do tratado anteriormente rejeitado, apelidando-o agora «de Lisboa».

No entanto, para gáudio e proveito dos grandes grupos económicos e financeiros nacionais e estrangeiros, bem podem PS, PSD e CDS-PP, através de artifícios jurídicos e da não realização do referendo, procurar manietar e subverter ainda mais a soberania do povo português que, em última instância, só a este compete e caberá exercê-la. A comprová-lo está esse momento maior da história colectiva do povo português, a Revolução de Abril.

Bem podem estes procurar amarrar Portugal a uma «integração europeia», na qual, após mais de vinte anos de falsas promessas, radicam as causas de alguns dos principais problemas com que os trabalhadores e o País são confrontados (desemprego, precariedade, baixos salários, pensões e reformas, pobreza e injustiças sociais, destruição e privatização de serviços públicos, desigualdades e dependência do estrangeiro). Os trabalhadores e o povo português saberão encontrar e construir os caminhos para conquistar de novo a sua emancipação.

Como temos salientado, a actual «construção europeia» não é inocente, inofensiva ou neutra. É a consolidação de um processo de classe que se faz, sem prejuízo de contradições, à medida dos interesses do capital e das potências capitalistas.

Cada nova etapa e «avanço» deste processo consolida e fortalece a criação de um «super-estado», de um poder político, económico e militar favorável ao grande capital e às grandes potências, para agudizar a exploração dos trabalhadores e o domínio sobre os povos, no quadro das suas relações de concertação/rivalidade com os EUA.

Com uma imensa alegria

Ao contrário do que pretendem fazer crer PS, PSD e CDS-PP, a «União Europeia» é questionável, é evitável e não é o único rumo para a Europa. Os resultados dos referendos realizados em França e na Holanda ou o medo e a fuga à realização de novos referendos aí estão a demonstrá-lo.

Como afirmámos no nosso último Congresso, enganam-se aqueles que pensam que «face às sucessivas etapas que a “construção” da União Europeia vai consumando, o PCP deveria, contrariando os seus objectivos e convicções, render-se à inevitabilidade e irreversibilidade desses processos».

Para o PCP, a resistência e rejeição desses ditos «avanços» não impede, antes pelo contrário, que, franqueada uma etapa, se defina no quadro dos seus objectivos e ideais a «estratégia adequada para desenvolver a luta em defesa dos interesses nacionais, da paz e da justiça social na Europa e as iniciativas necessárias para responder às novas situações, com uma intervenção política que, sem negar a realidade, não se adapta nem se submete, antes procura criar as condições para a transformar».

Como temos acentuado, cabe aos patriotas e democratas, ao povo português mobilizar e organizar vontades para a necessária ruptura com esta «integração europeia», contrária à soberania e aos interesses nacionais, à causa do progresso e da paz na Europa e no Mundo. Uma ruptura que abra portas à retoma do projecto emancipador de Abril, por uma Europa de cooperação, de progresso e de paz!

De manhã sempre que acordo embrulhado nos teus braços sei que a tormenta lá fora não me assusta. Tenho-te a ti. E isso basta-me. Carregamos o presente e o futuro nas nossas mãos.

Da transparência de um olhar sobre o Douro encontrei mil formas de te amar.

Calçou-te as botas e pisaste o chão forrado de folhas secas daquele Outono escolar. O primeiro. Ias de mão dada com ele. Na volta, o mesmo sorriso de felicidade, o mesmo toque, a mesma mão dada. Ao chegares a casa, descalçou-te as botas. No teu caminhar dançante e curvilíneo pelo chão da casa, também ele revestido de folhas secas, os teus pés deslizavam, levando-te para os braços dele. O amor original que te preenche foi plantado nesse dia.

Perdida naquela paisagem árdua e inóspita, abandonada na praia contemplando o mar ameaçador, descobriste que o nosso abraço enfrenta o céu fantasmagórico do passado. Abraço revigorador que nos faz tocar num horizonte lunar de felicidade.

Sentado no sofá sonhava que o amor invadia o meu corpo. Olhei em volta para a sala vazia da casa e não vi ninguém. Faltavas tu. Olhei para o coração e vi-te embrulhada num belo lençol de linho perfumado a chamar-me para o pé de ti. E fui ter contigo. Amamo-nos a noite toda até à explosão cósmica dos corpos. Amo-te…

Como o som coeso e uno de uma bela sonata tocada a quatro mãos, a história da nossa vida continua a ser escrita ao sabor da plenitude e da força dos movimentos dos nossos braços envoltos uns nos outros, fundindo o nosso amor num imenso abraço dos corpos. Sempre ao som de uma infinita sinfonia de afectos que compõem a partitura da nossa vida.

Ainda atracados na costa, demos as mãos e entramos no barco. O destino era paradoxalmente (ou não) uma incógnita e uma certeza. Destino incógnito nas coordenadas a percorrer. Uma certeza nos propósitos a atingir. Incógnito na imprevisibilidade do percurso mas certo da leveza com que manobramos o leme da candura das nossas emoções, o nosso destino nada tem de Destino. Construção nossa, humana, corpórea, deslizando nas macias ondas turbulentas da vida.

Olhamos um para o outro. Os teus olhos começam a falar ao meu coração. Contam-lhe aventuras e desventuras. Penduram o tempo efémero lá fora e pintam-me o tempo eterno de uma nova vida a desabrochar. Nos teus olhos resplandece uma terna alegria. A alegria dos meus. Dos teus. Dos meus-teus. Dos teus-meus.

Texto de Margarida Tengarrinha publicado no site O Diário.info.

O neo-realismo, as exposições gerais de artes plásticas e a contribuição que deram à luta pela modernidade da arte, em Portugal, têm sido persistentemente votados ao esquecimento, atacados ou deturpados. É altura de reabilitar e conferir a sua real dimensão a essa fase tão importante da História da Arte Contemporânea, ligada indissoluvelmente à luta anti-fascista em Portugal.
Não irei aprofundar aqui as razões desses ataques e desse apagamento e deixarei de lado a carga política que, em muitos casos, esteve na sua origem e se foi prolongando pelos tempos fora, até cristalizar em ideias feitas, difíceis de remover. E tanto mais difíceis de remover porquanto os principais responsáveis dessa situação foram aqueles que ocupavam lugares de destaque na pesquisa e divulgação da História da Arte, particularmente das Artes Plásticas em Portugal.

Também não posso deixar de referir que os mais activos detractores do neo-realismo visual o atacaram utilizando conceitos (ou preconceitos?) dogmáticos e intolerantes, exactamente quando acusavam os neo-realistas desses defeitos de dogmatismo, intolerância e…é claro, de ortodoxia. Chavões e equívocos que ainda hoje perduram, em textos de seguidores que continuam a repeti-los, ignorando talvez que nada é pior na crítica da arte do que o facciosismo, as ideias feitas e a paz podre do elogio mútuo em capelinhas de amigos.
Mesmo aqueles que têm tratado do neo-realismo visual com alguma equidade e profundidade não lhe reconhecem a importância que de facto teve e o impulso e avanço que determinou nas Artes Plásticas em Portugal. O mesmo não acontece com os estudiosos e especialistas do movimento neo-realista na literatura, que consideram ter esta desempenhado um papel de vanguarda no panorama da nossa cultura.
Julgo que deveriam ser mais aprofundadas as razões que estão na origem desta diferença entre os tratamentos dados pelos críticos e ensaístas das artes visuais e pelos da literatura neo-realista, quando as origens, filosofia e objectivos do movimento tinham as mesmas raízes comuns e tanto na literatura como nas artes visuais se destacaram nomes cujo valor é indiscutível na cultura portuguesa.
É certo que muito recentemente surgiram investigadores que iniciam uma nova abordagem do movimento neo-realista nas artes visuais, o que acontece, porém, é que quase inevitavelmente se apoiam em obras anteriores, correndo o risco de prolongar alguns equívocos. Daí a importância da criação do Museu do Neo-Realismo e as iniciativas que tem desenvolvido, exposições, conferências, publicação de catálogos e outros documentos e nomeadamente as actividades de pesquisa dos seus responsáveis ou coordenadas por eles. Entre os objectivos expressos pelo seu coordenador, Dr. David Santos, destaco: “uma mais ampla e continuada divulgação sobre a expressão visual de um movimento que ainda está preso a demasiados clichés e preconceitos, o que tem impedido, em certa medida, uma interpretação mais eficaz e produtiva do ponto de vista da investigação científica”. Isto poderá determinar um avanço significativo na justa visão histórica de uma época importante da cultura portuguesa.
Um dos aspectos em que se avançou, e não é de somenos importância, é a localização do neo-realismo visual num período que vai dos anos 40 a 60, comprovando que não se esgotou logo no início dos anos 50, como alguns historiadores da arte afirmavam. Quer a exposição “Um Tempo e Um Lugar”, realizada em 2005, quer a exposição quando da inauguração do novo edifício do Museu, em Outubro de 2007, dão prova evidente da vitalidade e extensão das opções visuais do neo-realismo por essas duas décadas.
Os traços dominantes dessa época são: a contestação viva e actuante do ensino academizante e retrógrado na Escola de Belas Artes de Lisboa, a acção unitária dos artistas pela modernização dos critérios da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), nomeadamente através da eleição dos júris das exposições e de direcções da Sociedade abertas à modernidade e isentas de influências fascistas, e a organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP’s) entre 1946 e 1956, verdadeiros actos de confrontação com o regime fascista, para a participação nas quais era condição implícita não apoiar o regime, e onde as opções estéticas do neo-realismo tomaram maior visibilidade.
A contestação dos estudantes da Escola de Belas Artes de Lisboa e a acção dos artistas tomaram muitas vezes o carácter de verdadeiras batalhas, que extravasaram do Largo de S. Francisco para o Chiado, do Café Chiado e da Brasileira para a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e que levaram ao encerramento desta, depois da luta travada pela eleição dos júris de pintura e de escultura para o salão da Primavera de 1952, júris até ali dominados pelos velhos bonzos do regime como Eduardo Malta, pintor das altas figuras da ditadura fascista, que acabou por ser expulso de sócio pela provocação que encenou contra José Dias Coelho, que encabeçava essa batalha. E que outra palavra se não esta podemos usar, quando de verdadeiras batalhas se tratou?
O regime fascista, esse, soube entender que a frente unida dos artistas plásticos tinha alcançado uma vitória e que a expulsão de Eduardo Malta constituiu uma derrota, e por isso mandou encerrar a Sociedade Nacional de Belas Artes, para a qual, pouco tempo antes, tinha sido eleita uma direcção de artistas unitária sob a presidência do escultor Anjos Teixeira, contra a lista daqueles que obstaculizavam ferozmente a entrada de artistas e obras de vanguarda nos Salões da SNBA.
Estes factos não podem ser ignorados para quem queira analisar sem preconceitos os caminhos para a modernidade, tanto mais que um dos factores sempre tidos em conta pelos historiadores deste período é a sucessão de esforços das várias gerações de modernistas para conquistarem a visibilidade em mostras públicas. É citado por exemplo António Pedro, um dos principais dinamizadores da modernização, com a criação da Galeria UP, que acabou por não ter grandes resultados práticos dada a inexistência então de um mercado da arte, assim como a realização de várias exposições da artistas modernos que, ao longo dos anos 30, se foram realizando, sem continuidade.
Exactamente para preencher esta lacuna foi criado em 1933 o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) sob orientação de matriz nazi definida por Salazar como a “política do espírito” e que António Ferro procurava levar à prática no campo da cultura, particularmente nas artes plásticas, com uma adaptação inteligente às nossas condições nacionais. Assim o SPN, cuja sigla passou a SNI (Secretariado Nacional de Informação) a partir de 1944, realizou catorze exposições de arte moderna entre 1935 e 1951. No plano estético, o pseudo-modernismo fomentado por António Ferro foi bem caracterizado por Diogo de Macedo, que no início dos anos quarenta já denunciava o “academismo de fundos claros do SPN, só superficialmente diferente do academismo de fundos escuros da Sociedade Nacional de Belas Artes”.
É neste contexto que se inscrevem as lutas dos anos 40 e 50 pela modernidade na Escola e na SNBA, nomeadamente pela conquista de espaços para exposições fora da influência do SNI e sem as peias dos academismos cediços da SNBA, lutas desencadeadas por um grande grupo de artistas de vanguarda. E, quando digo de vanguarda, refiro-me quer ao plano das opções estéticas, quer às opções políticas sob influência dos comunistas, ou próximo destes.
O facto de ter sido eleita para a Sociedade Nacional de Belas Artes uma direcção unitária e aberta à modernidade, de que foi presidente o escultor Anjos Teixeira, permitiu que nela tivessem acolhimento as Exposições Gerais de Artes Plásticas durante os dez anos em que se realizaram.
Só perto dos anos 60 (a partir de 1957), com a realização da primeira exposição promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e os seus apoios regulares a bolseiros, é que este panorama nas artes plásticas se alterou sensivelmente.
Mas esta não é razão para apagar ou ignorar aqueles anos difíceis em que as Exposições Gerais de Artes Plásticas constituíram uma abertura e um campo adequado para a apresentação de manifestações artísticas que lutavam pela expressão livre, pelo que a cada artista interessava exprimir como fundo e forma e, em última análise, contribuindo para fomentar uma renovação no panorama artístico português.
Rogério Ribeiro, o nosso querido amigo há pouco desaparecido e que participou activamente na organização das EGAP’s e no movimento neo-realista, é o melhor exemplo de um grande artista que daí seguiu para outros caminhos sem rejeitar o ponto de partida.
A própria evolução daqueles que, tendo sido cultores da prática e da reflexão plástica do neo-realismo passaram para outras opções estéticas, comprova que ali tinham ganho o poderoso impulso do inconformismo e da luta pelo novo, que os catapultou para novas experiências. Júlio Pomar e Lima de Freitas são bons exemplos disto.
A exposição “Um Tempo e um Lugar” realizada no âmbito do Museu do Neo-Realismo, abrangendo os dez anos das EGAP’s e de que Rogério Ribeiro foi comissário, permitiu uma visão desse período isenta e objectiva, que certamente ajudou a destruir muitos preconceitos e chavões. Ficou claro, por exemplo, que se o neo-realismo adquiriu maior visibilidade a partir das EGAP’s e nelas predominou, a verdade é que estas apresentavam uma pluralidade de opções estéticas decorrente dos objectivos de abrangência estética e de unidade política dos seus organizadores.
Contrariamente às críticas dos seus detractores, não se tratava da “unidade artificial que esteticamente as EGAP’s acabaram por criar”, mas sim do propósito consciente de não erguer barreiras nem criar rejeições no plano estético. Isto é, um critério o menos ortodoxo possível.
Por outro lado, as EGAP’s introduziram inovações quanto à pluralidade das disciplinas artísticas nelas apresentadas, acolhendo pela primeira vez em exposições de artes plásticas a gravura, a fotografia e a arquitectura.
Nessa época não se ensinava gravura nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto e o estímulo à gravura como modalidade artística que permitia uma multiplicação a baixo preço e uma divulgação ampla entre as camadas populares, permitiu a realização de exposições em centros operários, como nas colectividades populares do Barreiro e de Almada. Foi o incremento dado à gravura pelas EGAP’s que levou artistas que nelas expunham a criar a Cooperativa Gravura em 1956.
Assim, as Exposições Gerais de Artes Plásticas eram de facto inovadoras, abertas e livres, numa época de repressão, censura e ausência de liberdades. Livres de júris, de prémios e de medalhas, procurando o estreitamento de relações entre a arte e o povo, como os princípios do neo-realismo pretendiam.

Enlaçados, os corpos respiram o mesmo ar de plenitude. O momento efémero, mas sempre eterno, da fusão dos corpos dos amantes.

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Entre nós não há um rio insuperável.

Entre nós há toda uma corrente de sentimentos, toda uma enxurrada de vivências maravilhosas.

Entre nós há um lençol que desagua no amor mais belo.

Entre nós, não há um “entre nós”.

Entre nós, o amor!

Chovia lá fora. A água, despejada do céu, alagava as ruas. Fugias do tiroteio da chuva. Encontramo-nos pela primeira vez. O mundo encontrou, desde então, a unidade em ti. Eras a desconhecida que eu já conhecia há muito tempo. Desde que me lembro…

Arctic Monkeys, a banda rock que tem feito sensação no UK nos últimos dois anos, aqui com o tema Teddy Picker. A ouvir!

Retirado do blog Império Bárbaro.

A glorificação do conceito de “gestão” é hoje uma das dimensões da ofensiva ideológica que vai entando encobrir as estratégias políticas da classe dominante. O esforço para iludir o carácter de classe das políticas que orientam os nossos governos é cada vez mais intenso e isso mesmo também se verifica na forma como se vai, na linguagem sitemática da ideologia burguesa, associando simbioticamente o conceito de “gestão” ao conceito de “política”. Com isto, sucessivamente se justifica a submissão dos princípios políticos aos princípios do economicismo mercantil.

A gestão, por seu lado, é-nos apresentada como uma ciência, um objecto e um objectivo em si-mesma. A gestão enquanto instrumento social e económico ao serviço do bem comum é substituída por uma concepção de “gestão” cujo significado é objectiva, embora disfarçadamente, “gestão capitalista”. Desta forma, os governos remetem para a esfera do inevitavel, do incontornavel e do facto consumado todas as políticas que entendem, limitando a dimensão da política a um estreito conceito de “gestão”. Isto consolida a perspectiva do Governo-administração, funcionando como o Conselho de Administração. O Governo torna-se portanto um mero gestor, que gere consoante as orientações do mercado e as condições que o cenário em que se move lhe impõe. As opções de classe e a dimensão democrática e participativa que a “política” comporta são completamente arrasadas para dar lugar a uma prática empresarial.

Com isto, todo o país é sujeito às maiores injustiças em nome da “gestão” e para trás fica, cada vez mais distante, a democracia.

Mais “gestão” é hoje menos democracia.

A luz à noite é tão-somente uma questão de perspectiva. Se vista da Terra a noite é simplesmente uma parda paisagem, da Lua a noite consiste numa suave luz que desce e repousa no mar.

À noite o nosso amor incandescente afaga os nossos corações sedentos um do outro. De manhã acordamos com a ternura em estado puro, com a memória da noite maravilhosa que passamos. Mas uma memória que não ficou lá atrás mas projecta-se todos os dias como uma construção para a vida. Para a nossa vida, o nosso amor para a vida.

Lembras-te? Os meus dedos a sobrevoar a seara do teu rosto. A tua cabeça recostada no meu peito. A lua estava acordada e tu disseste: “quero ser pássaro”. Então, a lua abriu os lençóis e voamos.

Da varanda da minha sala contemplo o azul do céu. O horizonte de todas as esperanças. O solo estelar de onde brota a luz que ilumina o nosso amor. O terreno azul de toda uma felicidade conquistada e a conquistar… A conquistar palmo a palmo, passo a passo, desfrutando a frescura de cada movimento ascendente a um futuro de felicidade e amor.

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A certeza de que a corrente transporta sentimentos, vontades, criações, no fundo, emoções e palavras em circulação que vão pontuando a paisagem, a nossa paisagem, de beijos e de encontros sucessivamente repetidos e continuamente renovados… Junto ao rio.

No passado sábado chegou ao fim a exposição “Re:encontros – uma narrativa das cores” com quadros de Nádia Bastos e textos de João Valente Aguiar. Ao longo dos próximos dias vou publicar aqui os quadros e textos da exposição. Para já deixo-vos com o texto de apresentação do evento.

“Re:encontros – uma narrativa das cores” surge como uma experiência artística que procura interligar palavra e cor, escrita e pintura. Construindo-se mutuamente, as telas e as composições textuais expostas aspiram a uma construção estética que articule o traço do sentimento com a frase da vida. Re:encontros, porque cremos que o amor não é nem uma impossibilidade nem um sentimento passadista. Re:encontros, os contínuos encontros e cruzamentos de sentimentos, de gestos, de vivências, de carícias, de olhares que recorrentemente se vão repetindo sem nunca se repetirem. Re:encontros, onde o diálogo da tela com a folha de papel mais não é do que a translação de formas diferentes de apreender o mundo, mas que, por isso mesmo, se completam, complementam, fundem. Se viver pode ser uma arte, Re:encontros consubstancia uma expressão estética da vida que temos, que somos, que queremos e vamos continuar a viver. Re:encontros, o intervalo temporal onde o pincel e a cor se tocam num abraço acolhedor. Re:encontros, o ponto onde a palavra frágil como uma pétala se transmuta num silêncio arrebatador que fala aos nossos corações.

«We speak in silence every time our eyes meet».

7 – a transformação das Ciências Sociais numa ferramenta técnica de regulação sistémica. A desqualificação do pensamento crítico, particularmente do marxismo, concorre paralelamente com a transformação da História, Sociologia, Economia, Psicologia em acessórios instrumentais de regulação do sistema. De facto, o abafar do pensamento crítico, dentro e fora das universidades, tem sido peça-chave na própria reconfiguração das Ciências Sociais. Estas são vistas pelos académicos e intelectuais como apetrechos não mais orientados para percepcionar e compreender o mundo em que vivemos. Inversamente, o catecismo neoliberal que se tem assenhorado das faculdades de ciências sociais e humanas um pouco por todo o mundo – salvo honrosas e relevantes excepções – aposta na expulsão dos princípios da interrogação, da inquirição e da problematização dos fundamentos da sociedade contemporânea. Na Economia, por exemplo, os estudantes são treinados para assimilar acrítica e acefalamente os princípios da nova ordem, sendo formados para, no máximo, aprender a gerir taxas de juro, inflação, défice das contas públicas, etc. Questões essenciais na estruturação das sociedades e da economia contemporâneas como a natureza da mercadoria e a produção de valor a partir da exploração da força de trabalho ou a hipertrofia da financeirização em ordem a criar um balão de oxigénio (temporário) face à crise na extracção de mais-valia não são nunca sequer leccionadas. Na Sociologia, os estudos cada vez mais valorizados por sectores (cada vez mais) vastos da academia abrangem dois ramos: a) estudos que investiguem processos de exclusão social e que proponham medidas de tipo caritativo-filantrópicas e com uma redução máxima de custos, onde o recurso massivo a trabalho temporário e precário, quando não sob o regime do voluntariado, surge como uma dimensão de primeira importância para as chamadas políticas públicas definidas pela União Europeia e pelos governos neoliberais; b) estudos que incidam em meras enunciações de percentagens de desempregados jovens, de infoexcluídos, de jovens que abandonam a escola precocemente, número de horas dedicadas a ver televisão ou a navegar na internet, etc. Temos aqui a valorização de estudos (quase) estritamente quantitativos, onde a reflexão teórica sobre os fundamentos e os factores estruturantes que estão na base dos referidos fenómenos é clara e assumidamente desprezada.

Por este caminho, as Ciências Sociais têm sofrido um processo de colonização interna, destruindo qualquer tipo de reflexão crítica, retirando-lhe qualquer tipo de fôlego transformador. Este é o objectivo de pensamento neoliberal. A reflexão nas Ciências Sociais fica, assim, destinada aos scholars, aos conselheiros académicos de governos como Castells ou Giddens. Este tipo de autores surgem no panorama mediático e académico como vozes incontestáveis e sapientes. Contudo, a sua reflexão assenta sempre na reprodução dos princípios e das lógicas estruturais onde assenta o sistema, por muito que varie a terminologia de autor para autor. Castells pode falar da “sociedade em rede”, Ulrich Beck na “sociedade do risco” ou Giddens na “modernidade tardia” como se de novas configurações de sociedade e de organização da vida humana se tratasse. Todavia, a persistência - ao nível económico, do trabalho assalariado e da exploração dos trabalhadores; ao nível político, do Estado-Nação como organizador político nuclear da classe dominante; ao nível cultural, do domínio e concentração dos meios de produção simbólicos e ideológicos por parte da burguesia – mostra que os pilares do sistema capitalista mantêm-se intactos, apesar de reformulados, algo que nem sequer se pode dizer que seja absolutamente inédito na história desse sistema social.

Pela visualização destas tendências constata-se o grau profundamente perverso do pensamento neoliberal.

Para concluir, registe-se que o pensamento neoliberal não desaparece por pura e simplesmente desmontar as suas contradições e seus limites. Esse trabalho teórico é importantíssimo, quanto mais não seja pelo fornecer armas ideológicas e teóricas robustas aos progressistas e revolucionários. Contudo, em última instância, só a luta prática dos povos e dos trabalhadores, com suas organizações revolucionárias, permitirá superar de vez o arcaísmo do pensamento social neoliberal. Luta teórica (e ideológica) e luta de massas articulam-se como meios para o relançamento de uma perspectiva alternativa à forma actual de organização global do capitalismo. Perspectiva alternativa que passará necessariamente pelo socialismo.

6 – a estratégia da desqualificação do pensamento crítico. O pensamento social neoliberal comporta um conjunto de variantes. Desde as correntes mais abertamente mais liberais e que utilizam um vocabulário mais defensor e apologista do chamado “mercado livre”, até às correntes de tipo, digamos, social-liberal – onde uma linguagem com “preocupações sociais” se mistura com a adopção mais ou menos subreptícia das teses do desmantelamento das funções sociais do Estado, a partitura que orienta o pensamento social neoliberal no seu conjunto assenta em princípios estruturantes e considerados como intocáveis. Assim, a defesa acrítica do mercado (com um Estado minimalista e militarista/securitário mesmo ao lado) e dos princípios e teses que enunciamos anteriormente constituem o corpo teórico e ideológico dos think tanks neoliberais. Contudo, nenhuma concepção do mundo se sustenta sem procurar criticar correntes alternativas. Como se viu no ponto anterior, o neoliberalismo não critica e desqualifica apenas os partidos e organizações sindicais de classe. De facto, para o neoliberalismo qualquer tipo de pensamento não mecânico e que aponte qualquer tipo de questionamento ao sistema é imediatamente atacado como algo de ultrapassado. Em relação ao marxismo, o pensamento neoliberal tem adoptado duas principais estratégias.

Em primeiro lugar, a ofensiva ideológica neoliberal tem procurado esvaziar universidades, centros académicos, publicações, etc. de qualquer tipo de reflexão que não se balize nos seus princípios. Neste capítulo, o marxismo – salvo pequenos núcleos de pesquisa em alguns países – tem sido literalmente expulso das universidades. Para as várias cambiantes do pensamento neoliberal, o marxismo não passaria de uma velharia, uma teoria congelada no tempo incapaz de pensar a dinâmica do presente. Esta justificação ideológica surge com o intuito de expurgar a reflexão crítica de espaços que no passado foram produtores de conhecimento científico robusto tanto ao nível da interpretação da realidade como na interrogação dos pressupostos do capitalismo. Esta é, aliás, a pedra-de-toque do pensamento neoliberal.

Em segundo lugar, o pensamento neoliberal tem procurado consolidar a ideia de que o marxismo não é um pensamento crítico mas um pensamento totalitário e conservador. Totalitário, dizem eles, porque quereria impedir a liberdade individual de trabalhadores e patrões negociarem livremente no mercado. Como se o trabalhador e o patrão se encontrassem em situação de igualdade estrutural no mercado… Conservador, dizem eles, porque o marxismo reflectiria uma concepção sobre o mundo típica do século XIX onde teria vigorado a luta de classes. Hoje a harmonia entre as classes seria uma realidade indesmentível, onde os princípios da sujeição das organizações políticas e sindicais de esquerda aos ditames do capital teria predominância sobre a afirmação de uma linha que defendesse a independência política da classe trabalhadora. O mesmo se aplicaria ao pensamento marxista. Este não serviria para mais nada.

Voltando a alguns aspectos intrínsecos ao pensamento neoliberal, saliente-se ainda que não existe no seio de qualquer corrente neoliberal sequer a mais básica pergunta de qualquer investigação científica minimamente consistente: o porquê das coisas. Ou seja, o pensamento neoliberal funciona como uma malha para os seus próprios defensores, impedindo que os fundamentos do sistema sejam sequer identificados, quanto mais questionados. Não é por acaso que as próprias universidades e institutos superiores, com particular destaque para a Economia, procuram formar quadros intermédios e superiores – consoante a instituição – para a gestão do sistema, nunca para a reflexão sobre o mesmo. Por conseguinte, o pensamento neoliberal é tudo menos um pensamento científico mas uma mera ideologia com laivos de cientificidade para legitimar o funcionamento de um sistema económico perverso.