Março 2008


5 – a tese da resistência à mudança. Os neoliberais partem do pressuposto formalmente correcto de que o mundo está em constante mudança. Aliás, mudança e inovação são dois termos muito utilizados pelos boys de serviço do sistema. Contudo, o que entendem estes por mudança? Para o pensamento social neoliberal a inovação resumir-se-ia a dois parâmetros: a) inovação em termos de produtos e bens. Inovação que poderia ser mais ou menos cosmética. b) “inovação” ao nível das relações laborais e sociais. Aqui a inovação e a mudança significaria o retirar de direitos (na linguagem neoliberal, privilégios) dos trabalhadores. No fundo, ser moderno e inovador é, no ideário neoliberal, tornar-se flexível, um trabalhador disponível em toda a latitude para o capital utilizar como bem entender.

Por conseguinte, todos os que critiquem estas asserções neoliberais são taxados muito simplesmente como retrógrados. De facto, não deixa de ser surpreendente o poder ideológico da grande burguesia no que toca à manipulação massiva de grandes camadas da população, particularmente na capacidade que tem evidenciado em conseguir apresentar um ideário da primeira metade do século XIX – quando quase não havia direitos sociais para os operários – como profundamente moderno e high-tech. Aliás, o controlo quase absoluto por parte da burguesia da esfera mediática e da produção noticiosa e cultural faz com que essa classe dominante nem perca tempo a criticar teoricamente as teses alternativas ao seu modo de pensar e de agir. Com tal controlo hegemónico dos media, no contexto actual, à burguesia e seus intelectuais tem bastado classificar os seus contestários como conservadores e imobilistas. A crítica resume-se a isto e ponto final. É verdade que a crítica realizada é superficial mas ela é extremamente eficaz quanto mais não seja pela sua simplicidade (para não dizer simplista) e linearidade: «nós, neoliberais, transportamos a mudança civilizacional; eles, os comunistas e outros progressistas, são fósseis com ideias do século passado».

Por outro lado, a abordagem neoliberal do conceito de mudança procura retirar a sua carga de historicidade. De facto, o pensamento neoliberal concebe a mudança em termos estritos. Para o neoliberalismo a mudança circunscreve-se aos dois vectores mencionados acima (inovação de produtos e retirada de direitos). No fundo, mudanças que em nada alteram as bases estruturais do sistema e que apenas servem para reproduzir a mecânica da acumulação capitalista. Pela via do desenvolvimento do consumo (e do consumismo) e pela via do abaixamento de custos na produção, procurando elevar a taxa de exploração. Ora, tal conceito de mudança encontra-se despido da sua carga histórica, isto é, para o neoliberalismo a história acaba no capitalismo e ali se manterá indefinidamente. Ora, a tentativa de fechar a humanidade em tal sistema social e económico só pode representar, este sim, um pensamento retrógrado e bárbaro. Sobre a real mudança – a perspectiva de construção de uma sociedade socialista assente no poder dos trabalhadores – o neoliberalismo, como não poderia deixar de ser, nada nos diz. Por aqui se percebe que a resistência à mudança com que os apologistas do capital procuram atribuir a sindicatos e partidos de classe é, pelo contrário, algo geneticamente presente no pensamento neoliberal. Se para os seguidores – mais ou menos conscientes – deste último a mudança se resume ao célebre adágio “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”, para os marxistas e progressistas de todo o mundo poderíamos afirmar que “é preciso mudar tudo para que nada fique na mesma”. A luta pelo socialismo também passa pela necessidade de desmontar as teses congeladoras da história que a classe dominante procura inculcar nas massas.

4 – O mito da flexibilidade=liberdade. De acordo com o que se avalizou no post anterior, o capital procura inculcar nos trabalhadores modelos ideológicos com o propósito de estes actuarem como mini-empreendedores, como auto-empregadores. Esse vector ideológico não contribui apenas para criar referências de actuação individual dos trabalhadores coincidentes com os desígnios do capital. Importa também ao capital utilizar tal artifício como justificação e legitimação para o acentuamento da extracção de mais-valia, para o agravar da exploração da força de trabalho. Nesse âmbito, a retirada de direitos: o aumento da carga horária e da intensidade do trabalho; a limitação das idas à casa-de-banho, refeições, etc.; o reduzir de subsídios de alimentação, doença, assiduidade, etc. anexos ao salário; a redução salarial (em relação ao volume global de riqueza criada) – tudo isto, modalidades de redução do valor da força de trabalho, portanto, modalidades de aumento da exploração – são assumidos pelo capital perante os trabalhadores como inevitabilidades. A todo este processo de desbaste de direitos laborais o capital dá-lhe o nome de flexibilidade.

Na óptica dos apologistas neoliberais, tudo o que acrescentar valor ao salário, tudo o que assegurar um nível razoável à massa salarial é tomado como um atentado às liberdades individuais de cada trabalhador, pois este deveria apresentar-se no mercado livre de quaisquer “amarras” a não ser a mais completa ausência de garantias laborais. Para o pensamento neoliberal, a transformação do trabalhador em peça livre, em pau para toda a obra do capital é o consumar da “liberdade” individual. Ou seja, o indivíduo reduzido a si mesmo, o indivíduo trabalhador disponível a toda a hora e a todo o momento para executar as tarefas produtivas definidas pelo capital. A isto o capital chama de liberdade. Chamar-lhe-emos, a liberdade de o capital fazer do trabalhador uma mercadoria ajustável aos objectivos de elevação do lucro. Ainda mais simplesmente, a flexibilidade é a liberdade do capital fazer do trabalhador um indivíduo escravo dos ditames do lucro.

Independentemente de todos os artifícios ideológicos, a liberdade de uma classe é a ausência/constrangimento de liberdade da outra.

3 – a comunidade ilusória dos colaboradores. Querendo ofuscar a existência da luta de classes, o pensamento neoliberal fundamenta a tese da comunhão de interesses entre patrões e trabalhadores. Nada de novo neste aspecto, a não ser a recauchutagem formal dos termos utilizados. Se as empresas até à década de 70 diziam que tinham x trabalhadores ou x empregados, com o avanço neoliberal rapidamente o patrão passou a empregador e o trabalhador/empregado/funcionário a colaborador. O capital sempre pregou a comunhão de interesses entre trabalhadores e patrões como forma de amenizar as lutas operárias e, por essa via, tentar captar camadas operárias para o seu lado. O conceito do colaborador é, por um lado, uma extensão quantitativa desse fenómeno. Isto é, o colaborador surge na sequência histórica que mencionei acima. Porém, por outro lado, o conceito do colaborador é uma extensão qualitativa das teses da conciliação e da paz entre as classes. A identificação do trabalhador como um outro relativamente à empresa, a identificação do trabalhador como pertencente a uma categoria distinta da empresa permitiu que a própria cultura operária e a acção política das suas organizações de classe formassem, nuns casos mais noutros menos, a consciência de classe do trabalhador. No caso mais recuado, o trabalhador ao ser considerado pela própria empresa como trabalhador ou empregado sabia de antemão que ele não seria bem igual aos donos da empresa onde trabalhava. Por outro lado, o conceito de empregado chamava a atenção para o facto de que quem controlava (e controla) o recrutamento da mão-de-obra é o patrão. Por isso é que haviam os “empregados”, isto é, indivíduos despossuídos de qualquer recurso de produção a não ser o seu próprio corpo e a sua mente. O conceito de trabalhador era ainda mais subversivo, no sentido em que afirmava quase taxativamente qual a função do indivíduo assalariado na empresa - trabalhar, produzir - ficando para o patrão a função de dirigir o processo de trabalho e, no final deste, arrecadar os lucros obtidos com a venda das mercadorias produzidas, precisamente, pelos que trabalhavam, os trabalhadores.

O conceito de colaborador é sui generis porque procura apresentar o pólo antagónico da relação capital/trabalho como se um par complementar se tratasse. Ou seja, o pensamento neoliberal vai ainda mais além do pensamento funcionalista clássico das teses capitalistas comuns. O trabalhador não apenas tem uma função complementar ao do patrão: onde uns seriam detentores de trabalho e outros de capital (maquinaria e dinheiro – como se estes não fossem também eles fruto do… trabalho!). No pensamento neoliberal vai-se ainda mais longe: o trabalhador é um amigo colaborador do patrão. Isto é, o trabalhador mais ganha e mais recebe quanto mais veste a camisola da empresa, quanto mais horas não-pagas oferece à empresa, quanto mais labor, suor e reflexão oferecer à sua segunda família: a empresa. O trabalhador é um da equipa da empresa onde todos são comparsas e se direccionam para o mesmo objectivo: expandir os níveis de lucratividade da empresa. Assim, ao trabalhador fomenta-se a ideia de que há inimigos a abater: os trabalhadores das outras empresas em competição, os trabalhadores em geral que defendem ou ainda têm vínculos laborais estáveis e com salários relativamente bem pagos. Esses são os parasitas que impedem a competitividade da empresa. O trabalhador dentro do conceito do colaborador é, então, uma espécie de mini-empreendedor de si mesmo que tem de ser capaz de vender a sua força de trabalho, a sua força física e as suas capacidades intelectuais (adquiridas ou não) pelo preço mais competitivo (mais baixo) do mercado.

Com esta estratégia ideológica (não esqueçamos, sempre apresentada como inevitável e perfeitamente natural), pretende o capital reforçar as teses da comunhão de interesses entre trabalhadores e patrões. As contradições do sistema e os seus efeitos devastadores coloca aos trabalhadores a necessidade da luta. Que surje sempre, independentemente do tempo de duração das receitas ideológicas da classe dominante.

2 – o custo/benefício como código de leitura e de acção. A assunção de que o mercado (no sentido, da transformação da matéria, seja ela qual for, em mercadoria) é uma instituição natural e inultrapassável, cria a imagem de que a racionalização que os agentes sociais (na linguagem neoliberal não são sociais, mas tão-somente económicos) fazem das suas condutas passaria inevitavelmente por um raciocínio do tipo custo/benefício. Basicamente, o indivíduo teria que se comportar sempre de acordo com a equação “quantos mais benefícios tiver em relação aos prejuízos melhor”. Em termos muito gerais e um tanto ou quanto vagos, esta asserção até pode ser verdadeira. Qualquer pessoa na sua vida, como é óbvio, gosta de ter mais aspectos positivos do que negativos, mais bons momentos do que maus momentos. Contudo, o raciocínio neoliberal – que, curiosamente, se afirma tão natural e amoral mas que prega a moral do capital a toda a hora – equipara o bem e o mal não em termos das necessidades reais das pessoas, mas em termos dos ganhos económicos. Na base, o indivíduo e a sociedade no seu conjunto devem raciocinar na linha do custo/benefício tendo em conta os ganhos de lucratividade económica do mesmo. Por exemplo, uma determinada tecnologia na produção de componentes automóveis eleva a intensidade do trabalho, permitindo fabricar mais peças, por conseguinte, aumentando a produtividade da empresa e a correlativa lucratividade. Mas, ao mesmo tempo, considera-se que os salários devem manter-se e, num outro plano, essa nova maquinaria provoca danos nas articulações e nos tendões dos trabalhadores dessa empresa. O raciocínio neoliberal (que mais parece um reflexo condicionado pavloviano do que um uso da razão) pregará, neste caso, que como a máquina eleva os benefícios (o lucro) da empresa e baixa os custos com capital fixo, então nada melhor do que a aplicar ao processo de produção. Ora, do ponto de vista dos trabalhadores, a tecnologia não é neutra e deve estar ao serviço da satisfação das necessidades dos seres humanos e não para elevar a massa de capital à custa do rolo compressor do capital.

Debaixo do manto diáfano do pensamento neoliberal, a nudez crua da luta de classes.

Os ditames do pensamento único neoliberal hoje vigente tanto na academia como nos media, na política, etc. assentam num conjunto de pressupostos que importa descrever muito sucintamente.

1 – o mercado é uma instituição natural. Isto é, a transformação de toda a vida social, natural e humana em mercadorias passíveis de serem compradas e vendidas pelo melhor preço funcionaria como o motriz de desenvolvimento da humanidade desde tempos imemoriais. No fundo, espalhar as regras do mercado a todas as esferas da vida seria, por conseguinte, aproximar o ser humano da sua condição antropológica mais inata. Nestas condições, o indivíduo é mais bem-sucedido quanto mais se mostra capaz de se vender no(s) mercado(s): económico, mas também da dignidade moral. Como o mercado se apresenta, dizem os teóricos neoliberais, como uma instituição natural e amoral, nada mais sensato que o indivíduo tenha de fazer tudo por tudo para derrubar o vizinho e assim se apropriar de um quinhão da riqueza produzida. Os grandes homens para o pensamento neoliberal são precisamente aqueles que se mostram mais bem-sucedidos no esmagar e ultrapassar de todos os outros construindo impérios empresariais a partir, por um lado, da concorrência mais feroz do vale-tudo e, por outro lado, não menos importante, da exploração mais despudorada dos trabalhadores.

Kandinsky, Outono na Baviera

Public enemy com o tema Fight the power!

Não há cova funda

que sepulte

- a rasa covardia.

Não há túmulo que oculte

os frutos da rebeldia.

Affonso Romano de Sant’ Anna

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.

A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar teu riso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me todas

as portas da vida.

À beira do mar, no outono,

teu riso deve erguer

sua cascata de espuma…

Ria da noite,

do dia, da lua,

ria das ruas

tortas da ilha,

ria deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando os meus passos vão,

quando voltam os meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria.

Fernando Pessoa

Uma balada no outono,

às vezes como um murmúrio,

às vezes como um lamento

e às vezes vento.

Serrat

Cinco anos depois da invasão do Iraque, o genocídio do povo iraquiano continua. O carácter tenebroso do imperialismo dos EUA está bem patente nesta guerra. Segundo a revista Lancet, em vários artigos publicados desde 2004, terão morrido, de acordo com diferentes pesquisas entre 300 mil a 800 mil pessoas. Vítimas causadas directa ou indirectamente pela invasão norte-americana. Apesar das discrepâncias dadas no número de mortos, fruto da sonegação de informação dos EUA e das dificuldades de recolha de dados mais fiáveis no terreno, a realidade é que o morticínio continua.

A face bélica e genocida do imperialismo está bem visível no Iraque. A carnificina aí registada não é uma excepção à lógica de actuação dos EUA e seus aliados na cena internacional. De facto, a carnificina é o resultado directo, é a face mais arrepiante dos efeitos de um sistema social, económico e político criminoso e assassino. Esta lógica desumana e bárbara não decorre apenas da Administração Bush. Os indivíduos que compõem a camada dirigente actual no aparelho de Estado dos EUA são, evidentemente, criminosos e gente sem escrúpulos. Contudo, não se pense que foram e serão os únicos. Todos os próximos candidatos à presidência dos EUA partilham, como não poderia deixar de ser, da mesma estrutura ideológica de pensamento. As suas divergências reportam-se apenas a questões de agenda, oportunidade ou operacionalização militar no terreno. Quanto à essência intervencionista, militarista e assassina dos EUA em qualquer parte do mundo, nada disso é alvo de qualquer tipo de crítica ou reparo por parte das elites políticas norte-americanas. Daí que a compreensão de que os resultados macabros da invasão e ocupação norte-americana do Iraque não são apenas fruto de meia dúzia de energúmenos, mas são o corolário de todo um sistema que urge continuar a combater.

Aliás, a guerra no Iraque se mostra a face hedionda do imperialismo, também mostra que é possível resistir, que é possível lutar contra o imperialismo como mostra o povo do Iraque que corajosamente se bate de armas na mão contra o invasor. O exemplo de resistência em condições extraordinariamente difíceis, apesar de algumas divergências políticas e ideológicas em relação a vários sectores da resistência iraquiana, merece a nossa solidariedade. No Iraque, no Afeganistão, na Palestina, na Colômbia, etc., apesar das múltiplas diferenças políticas entre os resistentes, resiste-se! Lá como cá! Porque só a luta é o caminho!

Nos dias quotidianos

é que se passam

os anos.

Millôr Fernandes

Não,

o meu coração não é

maior do que o mundo.

É muito menor.

Nele não cabem

nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto

de me contar.

Por isso me dispo,

por isso me grito,

por isso frequento os jornais,

me exponho cruelmente

nas livrarias.

Carlos Drummond de Andrade

O socialismo é a única alternativa à barbárie com que o capitalismo, sob as suas mais diversas formas, colocou a humanidade. O carácter intrinsecamente desumano, destruidor, anti-ecológico e profundamente explorador e opressor do capital colocam à humanidade a necessidade de superar esse sistema social. De facto, a imanência exploradora, opressora e desumana do capitalismo coloca aos trabalhadores e aos povos de todo o mundo a necessidade impreterível de colocarem a construção de uma sociedade socialista na sua pauta de lutas futuras.

Por outro lado, o socialismo é uma possibilidade histórica e não apenas uma necessidade. Dizemos que é uma possibilidade pois as próprias contradições do capitalismo engendram tenções no sistema que mostram a inviabilidade do sistema. Essas contradições não derrubarão o capitalismo mas são importantes indutores para o pavimentar de condições objectivas para a construção de uma sociedade socialista. Dentre as contradições do capitalismo podemos, a título de exemplo, enunciar duas: 1) o carácter anárquico do mercado que é incapaz de atender às necessidades globais dos trabalhadores e dos povos, demonstrando a importância do planeamento e organização da vida económica pelos próprios trabalhadores e pelo seu Estado (socialista); 2) a tendência para a queda da taxa de lucro, onde face à elevação da produtividade do trabalho (e, por conseguinte, de extracção de mais-valia), o peso do capital morto (maquinaria, tecnologia, etc.) cresce mais  rapidamente do que a primeira, criando dificuldades de lucratividade para todo o sistema. Um exemplo deste fenómeno: na transição da década de 90 para a actual cerca de 40 por cento do parque industrial automóvel estava inutilizado de forma a compensar as dificuldades inatas do sistema de, a longo prazo, elevar a sua taxa de lucro.

Assim, o socialismo surge tanto como uma necessidade como uma possibilidade histórica. O mesmo é dizer que é fruto da dialéctica entre, respectivamente, as lutas operárias e populares em busca de um novo modo de vida social e, ao mesmo tempo, das contradições do sistema.

Carlos Bracher

Existem apenas

duas coisas infinitas:

o universo e a

estupidez humana.

E não tenho tanta certeza

quanto ao universo.

Albert Einstein

Dia 28 de Março vamos lutar:

  • contra a precariedade e contra o desemprego;
  • contra as alterações para pior do Código do Trabalho;
  • contra o aumento do custo de vida;
  • contra as práticas abusivas relativos a empregos a tempo parcial que se traduzem em empregos de facto a tempo inteiro com salários miseravelmente remunerados.

Dia 28 de Março vamos exigir:

  • a passagem a efectivos de todos os trabalhadores que exerçam funções de carácter permanente;
  • a revogação da norma legal que permite a contratação a prazo de trabalhadores à procura do primeiro emprego e desempregados de longa duração;
  • controlo e fiscalização do trabalho temporário;
  • a regularização da situação dos trabalhadores com falsos contratos de prestações de serviços (recibos verdes) convertendo-os em vínculos efectivos;
  • aumentos reais dos salários;
  • a efectivação dos direitos individuais e colectivos dos trabalhadores;
  • a defesa da Contratação Colectiva;
  • direito a emprego com direitos.

José Dias Coelho

Para aliviar a alma

tenho duas hipóteses possíveis:

a primeira é que me chame contigo,

a segunda, cerveja com os amigos.

Andreia Cabreira Menezes

O comprometimento com a luta popular, o embrenhar de cada um de nós em toda a sua inteireza na defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo é também um acto de amor. Ser-se comunista não deriva simplesmente do facto de compreendermos o mundo a partir de uma perspectiva de classe muito própria. Esse é um aspecto essencial e insubstituível para um comunista. Contudo, um comunista não é apenas um analista da sociedade que toma partido pela luta da classe trabalhadora. Um comunista actua quotidianamente junto da classe, junto dos seus membros concretos de carne e osso. Um comunista relaciona-se com os trabalhadores como de um igual se tratasse. Um comunista não olha para o trabalhador comum a partir de cima como se de um espécimen inferior se tratasse, mas como um camarada que importa trazer para a luta. Para uma luta que não lhe é exterior mas que diz respeito a todos os aspectos da sua vida (pessoal, laboral, social, profissional, familiar, afectiva, etc.). Por outro lado, um comunista deve fazer-se valer pelo exercício de uma conduta moral irrepreensível onde os valores da dignidade e da solidariedade falem mais alto.

Por tudo isso, a militância comunista, pelo comprometimento com a luta dos trabalhadores e dos povos, pela solidariedade que inscreve com os mais desfavorecidos, pelo alcance do ideal comunista, implica necessariamente um sentimento de amor. Não algo desconectado do mundo real, mas um amor pela construção de um mundo de homens e mulheres livres vivendo fraternamente.

Paula Rego

A banda Interpol com este belo “I not in the threesome”.

Editorial do Jornal Avante. A ler!

A tremideira nervosa que se apossou do Governo dá sinais de inquietante agudização – tanto mais inquietante quanto essa tremideira põe a nu um conceito de governação dominado pela arrogância, pela prepotência, por um quero, posso, mando e faço donde emergem frequentes medidas de carácter repressivo e um discurso oficial que, com cada vez maior frequência, ultrapassa os limites do mais elementar respeito democrático e descamba na insolência boçal e pesada de ameaças.
A semana que passou ficou marcada por uma sucessão de ocorrências antidemocráticas, cuja gravidade está na razão directa do ascenso da luta de massas contra a política do Governo e pela exigência de uma política de esquerda.
A poderosa Marcha Liberdade e Democracia, organizada pelo PCP no dia 1 de Março; a impressionante Marcha da Indignação convocada, no dia 8, pelas estruturas de classe dos professores; as muitas outras importantes lutas de empresa entretanto realizadas; e as lutas previstas para o futuro imediato, designadamente a manifestação em greve da Função Pública da próxima sexta feira, evidenciam uma muito clara e positiva determinação de luta dos trabalhadores que enerva e irrita o Governo e que o faz mostrar a sua verdadeira face e é óbvio que este Governo não suporta a democracia, teme a, e dispara ao menor ruído democrático.
A carga da GNR sobre os trabalhadores em greve na ETAR de Sines (repetindo a prática utilizada na Valorsul) é uma carga da política de direita contra a Constituição da República e os direitos, liberdades e garantias que ela consagra da mesma forma que a prisão do eleito autárquico (à semelhança da recente condenação a 75 dias de prisão de um dirigente sindical) é a insistência obsessiva do Governo num caminho fora da Lei Fundamental do País.
Enfim, a repressão crescente praticada em milhares de empresas por um patronato explorador que goza de total impunidade e conta com todo o apoio do Governo, é um exemplo da marca de classe da política de direita e da sua incompatibilidade com o regime democrático legal.

As reacções da ministra da Educação à histórica manifestação dos professores de sábado passado, são bem elucidativas do conceito de governação democrática em vigor: para a ministra, sem margem para dúvidas, a rua não é espaço de exercício democrático pelo que mil, dez mil ou cem mil professores na rua, é para ela exactamente a mesma coisa: nada. Assim o diz contudo, com olhos e voz de quem não perdoa que mais de dois terços do total dos professores que compõem a classe tenham vindo reclamar os seus legítimos direitos…
Também as declarações do ministro Santos Silva, em Chaves, desnudam um conceito de democracia que se aproxima mais do regime que durante 48 anos oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses do que do regime democrático conquistado com a Revolução de Abril.
O ataque ao PCP desferido pelo ministro é todo feito da raiva decorrente do facto de o PCP ser um partido singular, no plano nacional, em matéria de luta pela liberdade, pela democracia, pelos interesses dos trabalhadores, do povo e do Pais luta seguida com total coerência ao longo de 87 anos, marcando a diferença em relação a todos os outros partidos, PS incluído.
O ministro Santos Silva sabe embora finja que não e, sem vergonha, manipule a verdade que essa diferença começou quando o fascismo decretou o fim dos partidos políticos e o único que não acatou a ordem e decidiu mergulhar na clandestinidade e resistir, foi o PCP mostrando inequivocamente ser diferente dos que são todos iguais, nestes incluído o PS.
Contrapondo à democracia avançada de Abril a democracia velha, baseada na exploração e na opressão, que ele pretende impor como modelo único, o ministro é um homem do passado.
E quando ministra e ministro, invocando essa democracia velha, rejeitam a rua como espaço de intervenção democrática, estão de facto, a rejeitar a democracia e a liberdade conquistadas precisamente nas ruas (e que de outra forma não teriam sido conquistadas), nesse momento mais belo, mais avançado e de maior modernidade da História de Portugal que foi a Revolução de Abril.
O medo da rua manifestado pelo Governo e a obsessão doentia com que o expressa, parecem indicar que se trata de um medo duplo e simultâneo: o medo de ser deitado para a rua por efeito daquilo que mais teme as grandes acções de rua das massas trabalhadoras.

O primeiro ministro e os seus ministros podem persistir na sua postura de fechar os olhos e os ouvidos face ao descontentamento generalizado provocado pelas consequências da sua politica.
Podem continuar a «ver» comunistas encapuzados nas centenas e centenas de milhares de portugueses que, das mais diversas formas, expressam o seu protesto e reivindicam os seus legítimos direitos.
Podem, incapazes de conter o nervosismo que os assola, desaustinados, desnorteados, continuar a bolsar insultos, ofensas e calúnias contra o PCP e contra os trabalhadores em luta.
Podem intensificar as práticas e medidas antidemocráticas, persecutórias, repressivas, em claro desprezo pela Constituição da República Portuguesa.
Mas não podem por muitos argumentos anti democráticos a que deitem mãos impedir a continuação da luta de massas.
E a luta de massas como eles muito bem sabem e receiam é, simultaneamente, o caminho da liberdade e da democracia e o caminho para a derrota da politica ao serviço do grande capital e para a sua substituição por uma politica ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País.

Malevich

1 – Este comício do PS é simplesmente inócuo. Não vai movimentar nada de próximo com o que o PCP conseguiu há duas semanas atrás quando colocou 50 mil pessoas na rua contra a miséria de políticas deste governo. Portanto, o PS não é um partido de massas e é incapaz de ter uma ampla base militante que se mobilize. Isso assim é porque quase ninguém no PS anda lá por motivos ideológicos ou de afinidade política com qualquer tipo de ideal mas em busca de tachos. Ou melhor, a única ideologia interna é a repetição bacoca de meia dúzia de slogans de que seriam a esquerda democrática. Fora esses lugares comuns que não dizem nada e explicam ainda menos, a luta interna por tachos e a aceitação acrítica do mercado são os únicos ideais motrizes da esmagadora maioria dos militantes e dirigentes do PS. Por conseguinte, no Porto irão estar os dementes mentais e oportunistas em defesa do indefensável, em defesa de um governo que tem feito da escola e da saúde públicas e dos direitos dos trabalhadores alvos a abater. Gente manipulada ou gente sem dignidade que apoiará um governo que tem feito de Abril o seu alvo a abater.

2 – A suposta intimidação contra esse comício é conversa fiada. Primeiro, porque o próprio governo do PS não tem muito que abone a seu favor neste campo. De facto, as visitas pidescas a sedes dos sindicatos, a perseguição em vários departamentos da administração pública a pessoas com diferentes opiniões políticas, as bastonadas dadas pela polícia de choque a trabalhadores na Pereira da Costa por quererem defender o património da empresa e receberem as indemnizações a que têm direito por lei, as identificações e intimidações (de que já resultou na prisão – inédita desde o 25 de Abril de 74 – de um dirigente sindical) a dirigentes sindicais são apenas alguns dos exemplos do grau de (in)tolerância democrática do governo PS. Ao mesmo tempo, um governo que deixa impunes (quando  nos bastidores não aplaudem mesmo) milhares de empresas que por esse país fora condicionam e ameaçam despedir (quando não o fazem descaradamente) trabalhadores que participam em greves e outras formas de contestação não tem moral para falar em intimidação.

Em segundo lugar, esse cliché da intimidação é simplesmente uma pirueta para justificar a mobilização ridícula do PS a nível nacional para um comício num pavilhãozeco. Se o pavilhão não encher – o que duvido porque é pequeno e as merendas pagas aos velhinhos de Cabeceiras de Basto como nas últimas eleições em Lisboa pelos vistos funcionam – a culpa é da intimidação. Se o pavilhãozito encher então os chuchas virão com a conversa de que são uns grandes democratas e que não têm medo de afrontar as supostas intimidações.

No final de contas, este será mais um acto de show-off do governo para justificar o injustificável e querer dar um ar de apoio às suas políticas que sabe que não tem. Esse discurso da intimidação não passa de folclore e de uma mentira por parte de quem, todos os dias, o promove e pratica.

Identidade: 352526

Cor: pardo

como todos os pratos à noite

Profissão: poeta e boémio

Cabelos: de neblina e luares.

Sinais particulares:

um poema tatuado na língua.

Arnaldo Tobias

Malevich

No que toca à política internacional, Obama mostra não ser tão diferente como à primeira vista se poderia pensar. Em primeiro lugar, Obama não é contra a lógica imperialista de intervenções bélicas de morticínio em massa, mas difere de Bush apenas no que toca à oportunidade e ao momento. Neste ponto Obama é muito explícito. Sobre a guerra do Iraque, Obama não contesta a natureza de uma intervenção/invasão àquele país mas antes o momento do mesmo. Para Obama, os EUA deveriam primeiro ter resolvido o problema militar no Afeganistão (se é que tal é possível, mas isso é doutro domínio)e só depois o Iraque. Por outro lado, Obama defende que a justificação mediática da guerra foi mal feita pela Administração Bush. Portanto, para Obama não há reservas quanto à substância da política externa dos EUA, mas quanto à forma de a aplicar no terreno. Em segundo lugar, Obama tem no seu programa – auto-apelidado de democrático e vanguardista – uma enfática declaração de princípio no apoio a Israel, a um Estado genocida praticante de actos bárbaros contra os povos palestiniano e libanês. Obama afirma mesmo no seu site que «o nosso primeiro e mais inquestionável compromisso no Médio Oriente é a segurança de Israel». Por outras palavras, sem a defesa do seu posto avançado no Médio Oriente, os EUA sabem que muito dificilmente podem actuar livremente naquela importante região do globo. Ora, mais uma vez, é a permanência e aprofundamento da lógica imperialista que surge no discurso e programa de Obama. Para terminar este tópico, refira-se que Obama propõe reforçar o militarismo inerente ao Estado americano e, entre outras medidas, considera essencial aumentar o contingente militar. Com Obama novas intervenções imperialistas, quase de certeza, acontecerão.

Para concluir o que expusemos nestes três pequenos textos diremos apenas que Obama é um homem do sistema de poder dos EUA e não mudará a natureza deste. Poderá modificar a comunicação desse mesmo sistema de poder ao resto de mundo em caso de vitória eleitoral. Procurará dar uma face mais humana e mais maquilhada da máquina de assassínio e de espoliação do Terceiro Mundo pelos EUA e seus aliados. Em última instância, pode ser que Obama consiga esse desígnio durante algum tempo. Mas no final de contas as contradições e as necessidades do sistema mostrarão a real face de Obama e, mais importante do que isso, do imperialismo norte-americano. A crise do capitalismo na extracção de mais-valia, a corrida inter-imperialista por recursos naturais, a busca de segurança geoestratégica entre as várias potências imperialistas e a luta pelo controlo da moeda mundial (no momento é o dólar) obrigarão Obama a abandonar os laivos de progressista e de democrata que ainda vai veiculando e que os media vai ajudando a propagar. Se ele vencer as eleições no final do ano, a natureza do sistema imperialista não mudará. Simultaneamente, a luta anti-imperialista também prosseguirá em todo o mundo.

Rogério Ribeiro

Obama tem ganho uma fama de homem plural e progressista. No que toca a aspectos de ordem religiosa poderia parecer que o fanatismo religioso estaria ausente em detrimento do laicismo. Ora, apesar das diferenças, Obama aposta no mesmo esquema mental de impulso da religião e do obscurantismo como armas de reforço do sistema de poder vigente nos EUA. Obama não coloca em causa o sistema económico norte-americano (se o fizesse, certamente não seria candidato) e, por arrasto, não coloca em causa esquemas de pensamento retrógrados e baseados na fé religiosa como forma suprema de vivência humana. Não questiono aqui a crença individual de cada um (algo perfeitamente legítimo), mas o reforço que Obama quer continuar a fazer do pensamento religioso e sua correlativa relação com o esquema mental “EUA=nação de crentes=nação eleita de Deus=nação legítima a evangelizar e intervir no resto do mundo”. Neste quadro, Obama é um candidato do sistema, não apenas porque é tão neoliberal como os outros, mas também pelo reforço que ele quer continuar a fazer do substrato ideológico que envolve e legitima todo o sistema de poder norte-americano.

Para finalizar, reparemos apenas nas seguintes frases de Obama (retiradas do seu site):

«como progressistas, não podemos abandonar o campo do discurso religioso»

«a fé é uma fonte de acção pela justiça»

«nunca devemos esquecer que Deus bafejou-nos o poder da razão para que possamos [os EUA, nota minha] fazer o Seu trabalho na Terra».

«como Josué construiu uma nação a partir do trabalho de Moisés, os líderes de hoje – a “geração de Josué” deve continuar a construção encetada pelas gerações do passado para fazer avançar a nossa nação». Por outras palavras, sem fé religiosa os EUA não podem avançar, sem a profusão do irracionalismo e de uma estrutura de pensamento assente meramente em princípios religiosos os EUA não podem continuar a sua saga imperialista em casa e no exterior. Daí a aposta de Obama – transversal a todos os principais candidatos – em fomentar o irracionalismo e o obscurantismo religiosos.

Juarez Machado

Imagem retirada do blog Cravo de Abril 

A primeira vez que ouvi falar do Rogério Ribeiro foi no já longínquo ano de 2000. Andava eu numa livraria Fnac à procura de livros sobre Álvaro Cunhal e sobre o comunismo e encontrei uma edição do “Até amanhã, camaradas” com desenhos do Rogério Ribeiro. Fiquei encantado com o seu traço original e expressivo.

Para um jovem em busca de si mesmo e do ideal de vida que me guia (e guiará), os desenhos do Rogério Ribeiro foram a melhor porta de entrada para um mundo novo. Foram esses desenhos que me fizeram comprar um exemplar do “Até amanhã, camaradas” e uns meses mais tarde aderir ao Partido. O exemplar comprado não tinha as suas ilustrações, mas sem elas não teria reparado no livro do Álvaro e, por sua vez, sem esse livro a minha vida hoje não seria o que é. Quanto mais não fosse por isso, deixo aqui esta homenagem pessoal ao grande pintor português que faleceu hoje aos 77 anos de idade. Até sempre, Camarada!

Barack Obama tem sido apresentado por boa parte da esquerda bem-pensante como a grande esperança de modernidade e frescura para o campo da esquerda política. Ao mesmo tempo, os media dominantes e a direita mais troglodita gostam de apresentar Obama como um progressista, como um homem de esquerda. O que é curioso é que ninguém, ou quase ninguém, apresenta Obama pelo que diz ou faz (ou propõe fazer). Cria-se assim um imagem superficial do candidato como se de uma tábua de salvação para os trabalhadores e para os povos se tratasse. Vejamos o que diz o homem no seu site e comprovemos como ele não se distingue, em termos de políticas estruturais, dos restantes candidatos neoliberais que concorrem à Casa Branca.

Em termos de política económica, Obama é mais um crente acéfalo nos mitos do mercado. Escutemo-lo. «Acredito que o mercado livre tem sido o motor do enorme progresso da América». De facto, “progresso” americano que se sustenta em milhões e milhões de trabalhadores imigrantes explorados até ao tutano, salários reais ao nível da década de 70, discriminação salarial e no acesso ao emprego no que toca a mulheres, negros e mexicanos, milhões de pobres. Obama acredita que é preciso continuar com o caminho de destruição de direitos laborais, flexibilizar as relações de trabalho e de apoiar a concentração de capitais pela parte dos grandes grupos oligopolistas norte-americanos. Assim, Obama mostra preconizar intentos estruturalmente idênticos a todos os presidentes e candidatos a presidente. Isto é, Obama corresponde a uma máscara cosmética dita de “esquerda” para prosseguir sem sobressaltos sociais – assim espera o grande capital americano – a exploração da força de trabalho americana.

João Abel Manta

O Jornal de Noticias prossegue a discriminação e o silenciamento do PCP.
O Jornal de Noticias não divulgou nenhuma noticia do Comício do PCP do
passado sábado.
Contra a censura e a discriminação PROTESTA.
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Tese 10 – o marxismo é a ferramenta teórica mais apurada para a luta dos trabalhadores

Inspirados pelo pressuposto de Marx e de Engels de que «as proposições teóricas dos comunistas não assentam de modo nenhum em ideias ou em princípios inventados ou descobertos por este ou por aquele reformador do mundo», mas que são «tão-somente expressões gerais de circunstâncias concretas de uma luta de classes que existe, de um movimento histórico que se desenrola diante dos nossos olhos» (p.76), devemos prosseguir com o estudo das obras clássicas do marxismo. Em simultâneo, a ligação dos comunistas à vida e ao pulsar das massas fornece elementos empíricos de aprendizagem e de afinamento do quadro teórico marxista às novas realidades sem nunca trair princípios estruturantes da identidade comunista. A reflexão teórica dos marxistas é uma necessidade evidente e sem a qual a prática perde capacidade de orientação. O debate fraterno, a discussão colectiva do património teórico do marxismo e o próprio estudo individual devem ser, nesse sentido, articulados como forma de elevar a formação política de todos os comunistas e revolucionários. O sucesso dos marxistas na luta ideológica e teórica é uma frente decisiva, se bem que não a única, para que os trabalhadores e os povos possam entrar num novo processo de afrontamento do capital.

Álvaro Cunhal, Desenhos da prisão

Porque ontem foi dia da mulher aqui vai um poema:

Pequena cantiga à mulher

Onde uma tem

o cetim

a outra tem a rudeza.

Onde uma tem

a cantiga

a outra tem a firmeza.

Tomba o cabelo

nos ombros

o suor na barriga.

Onde uma tem

a riqueza

a outra tem

a fadiga…

Procura o pão

na gaveta.

Onde uma tem

o vestígio

tem a outra

a pele seca.

Enquanto desliza

o fato

pega a outra

na enxada.

Enquanto dorme

na cama

a outra

arranja-lhe a casa.

Maria Teresa Horta

Sou extremamente

sincero com a poesia

invento a cada momento

uma verdade vadia.

Araldo Pereira

A ordem é o prazer da razão,

mas a desordem é

a delícia da imaginação.

André Malraux

Tese 9 – a luta contra a propriedade privada burguesa

No encadeamento do que tem sido exposto é natural que o objectivo principal dos comunistas e dos trabalhadores passe invariavelmente pela questão da propriedade privada dos meios de produção. «O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa» (p.76). Em poucas palavras, estando a raiz da sociedade contemporânea na exploração da força de trabalho de milhões e milhões de homens e mulheres parece perfeitamente óbvio que Marx e Engels afirmem que «só queremos suprimir o carácter miserável desta apropriação, em função da qual o operário só vive para aumentar o capital, só vive enquanto o exige o interesse da classe dominante» (p.78). Só com a superação da divisão do trabalho inscrita na propriedade privada capitalista poderá a humanidade alcançar uma real liberdade. Só a expropriação dos expropriadores assegurará a constituição de uma nova ordem social livre da opressão e da exploração. Nesse sentido, a luta política pela tomada do poder de Estado (e posterior transformação da sua estrutura interna) conjuga-se com a luta pela socialização dos meios de produção: «o proletariado usará o seu domínio político para ir arrancando todo o capital das mãos da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado» (p.84) socialista. Suprimindo as condições sociais de produção do capitalismo, o proletariado cria as condições para a edificação de uma nova sociedade. Assim, por distante que possa parecer estar, a luta pelo socialismo deve estar sempre no pensamento dos revolucionários. A insubstituível luta quotidiana em torno de reivindicações concretas deve estar sempre enquadrada pelo objectivo supremo de construir uma sociedade socialista.

Tese 8 – os comunistas e o proletariado

A constituição do proletariado como classe é inseparável da construção de organizações sociais e políticas de vanguarda. Muitos dos que hoje advogam à força toda a separação entre o leninismo e o marxismo parecem querer esquecer que a necessidade de a classe trabalhadora formar organizações políticas de vanguarda se encontra perfeitamente expressa no Manifesto. O leninismo será a posterior operacionalização prática deste enunciado básico da luta dos trabalhadores. Por outro lado, não foram os comunistas ao longo dos últimos 200 anos que criaram uma suposta mitologia da classe operária nem foram os arquitectos obscuros da manipulação de hordas bárbaras de operários. Tais argumentos provenientes dos mais abalizados apologistas do grande capital gostam, na prática, de fazer dos comunistas meros sinistros manipuladores de massas ignorantes e inatamente incapazes de se manifestarem colectivamente. Os vermelhos malvados seriam, então, os verdadeiros responsáveis pela mobilização contranatura das massas trabalhadoras. Este é o discurso pretensamente académico e científico que os intelectuais do sistema adoram recitar na sua interpretação demencial da História. Na verdade, as lutas espontâneas de grandes massas de trabalhadores são anteriores à formação de organizações comunistas e socialistas. As lutas dos tecelões da Silésia, por exemplo, foram um dos factores que levaram Marx a abraçar a causa do socialismo. Ou seja, o desencadear de lutas operárias, inicialmente feitas num estado embrionário de organização, é que levou à necessidade de as enquadrar numa grelha teórica capaz de orientar a luta política da classe trabalhadora. Em paralelo, foi o desenvolvimento da luta operária na primeira metade do século XIX que levou à criação de organizações sociais, culturais e políticas da classe. Nesse aspecto, a teoria de Marx e Engels surge como o resultado de uma reflexão científica em torno das lutas que a classe operária desenvolveu e não uma teoria criada a priori e internalizada à força nas massas como a maioria dos intelectuais do sistema procuram fazer crer. A própria Liga dos Comunistas – geralmente considerada como a primeira organização internacional de comunistas – surge como uma necessidade de organização política por parte de operários e artífices alemães emigrados em Paris e em Bruxelas.

Esta génese dos comunistas do seio da classe trabalhadora fez e faz com que «não tenham quaisquer interesses separados dos interesses de todo o proletariado» (p.75). Na verdade, a sua maior diferença em relação ao conjunto da classe passa por, na prática, serem «o sector mais resoluto dos partidos operários de todos os países, o que maior impulso lhes dá» e por na teoria excederem a «restante massa do proletariado no conhecimento das condições, do andamento e dos resultados gerais do movimento proletário» (p.75-76). As organizações de vanguarda do proletariado assomam assim como os destacamentos mais esclarecidos e mais dedicados à luta mais geral da classe.

Tese 7 – a constituição do proletariado como classe

Sendo a classe trabalhadora a classe social mais capaz de poder induzir transformações revolucionárias, isso não se concretiza sem a sua mobilização colectiva. O que quer dizer que sem luta e sem a tomada de consciência por parte da classe trabalhadora do seu papel histórico de luta contra o capital, o proletariado encontra-se numa situação de imobilidade. O estado mínimo de organização da classe trabalhadora pode ser observado quando «os operários formam uma massa dispersa por todo o país e dispersa pela concorrência» (p.69). Este é o plano preferencial para a reprodução das condições sociais de produção do sistema capitalista. É pela contínua divisão da classe trabalhadora que o capital dirige inúmeros esforços políticos e ideológicos. As tentativas para tentar colocar trabalhadores da função pública contra trabalhadores do sector privado, trabalhadores nativos contra trabalhadores imigrantes, trabalhadores sindicalizados contra trabalhadores não-sindicalizados, trabalhadores efectivos contra trabalhadores precários, trabalhadores empregados contra trabalhadores desempregados, constituem acções promovidas com o claro intuito de desorganizar a classe e fomentar o individualismo. Este é, em muitos casos, o cenário mais frequente em muitos países e em muitas empresas. A questão que Marx e Engels colocam no Manifesto é que os trabalhadores ao longo de todo um processo histórico têm necessariamente de enfrentar o patronato. E o que muitas vezes começa por ser um protesto de um número reduzido de trabalhadores por melhores condições de trabalho na sua empresa, acaba por ganhar uma expressão mais forte e com maior amplitude, extravasando os limites de um qualquer local de trabalho. «As colisões entre o operário isolado e o burguês isolado tomam cada vez mais o carácter de colisões e confrontos de duas classes» (p.70). Quer dizer, se a luta operária parte quase sempre do local de trabalho em torno de questões muito específicas, essa mesma luta não pode ser desqualificada. É dela que o proletariado aprende a reivindicar, é nesse ambiente que o individualismo é quebrado, é na pequena luta operária concreta que o trabalhador compreende que ele não é atacado isoladamente nos seus direitos mas que comunga dos mesmos interesses que os seus colegas de classe. Daí que os trabalhadores se reúnam «em defesa do seu salário» e fundem «eles mesmos associações permanentes» (p.70), como os sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos. As lutas operárias podem ou não resultar em vitórias definitivas. Mas do ponto de vista do amadurecimento da consciência política e social da classe e da sua capacidade organizativa, o mais importante não é a vitória imediata, mas o fortalecimento dos seus laços de solidariedade e a amplificação dos níveis de consciência de classe: «de tempos a tempos vencem os operários, mas só transitoriamente. O resultado real das suas lutas não é o êxito imediato, é a união dos operários que cada vez mais se propaga» (p.70).

Consequentemente, a luta operária não apenas se consolida no plano das aspirações económicas como se alça à condição de luta política. Luta política contra as políticas de um governo, luta política pela ampliação de direitos, luta política onde a classe trabalhadora se identifica e compreende a si mesma como uma classe com interesses antagónicos dos interesses da classe dominante e como uma classe com uma linha política autónoma dos ideais burgueses. Nas palavras de Marx e Engels, este é o estado em que se dá a «organização dos proletários em classe, e deste modo em partido político» (p.70). Na prática, a classe no seu conjunto tem então maior consciência do mundo social e das leis que o regem, como é capaz de criar organismos próprios para a defesa dos seus interesses: os sindicatos no plano da luta reivindicativa; e os partidos ou organizações políticas de vanguarda, centros de definição estratégica do andamento das movimentações políticas da classe, tendo sempre como objectivo a ampliação da luta dos trabalhadores contra o capital.

Refira-se ainda neste capítulo que se é verdade que «os operários não têm pátria» (p.82), na medida em que os seus interesses de classe sobrepõem-se sempre a estreitamentos nacionalistas, também é verdade que «a luta do proletariado contra a burguesia começa por ser uma luta nacional» (p.73). Só «com o desaparecimento do antagonismo das classes no interior da nação desaparece a hostilidade entre as nações» (p.82). Este ensinamento mostra que a luta de classes tem como principal terreno o espaço nacional e que, ao mesmo tempo, é esse fenómeno que permite que a paz seja uma realidade. Nessa medida, só a instauração de uma ordem socialista permite quebrar a espinha ao imperialismo e, por conseguinte, abrir espaço para que a paz prospere entre os povos. O espírito do internacionalismo – a solidariedade dos trabalhadores com todos os seus camaradas de classe e com todos os povos em luta – não é incompatível com a noção de que a luta de classe começa no espaço nacional.

Tese 6 – O proletariado e a classe trabalhadora

As teses que repetidamente anunciam o fim da classe trabalhadora não são de hoje. Contudo, o novo panorama político surgido com o fim da União Soviética relançou o fôlego para essas concepções. Na famosa definição do Manifesto, o proletariado, a classe dos modernos operários consubstancia-se naqueles que «só vivem enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto o seu trabalho aumentar o capital» (p.67). Esta definição genérica tem como principal valor a compreensão de que trabalhador assalariado é aquele que se encontra despojado das condições sociais de produção. Daí que ele só subsista enquanto tem trabalho. Por outro lado, o seu trabalho não é apenas uma actividade socialmente útil que produz bens e serviços para a população, mas toda esse lado de satisfação das necessidades humanas está subordinado ao imperativo de “aumentar o capital”, isto é, de aumentar o valor económico que a burguesia se apropria, do trabalho humano que se transforma em mercadoria portadora de mais-valia.

A classe trabalhadora é igualmente alvo de um processo de desqualificação crescente. Este é um processo dual onde a «uma hierarquia completa de sargentos e oficiais de capatazes e supervisores» (p.68), o operário se torna «um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono, mais fácil de aprender» (p.67). Os jovens trabalhadores em inúmeras linhas de produção industrial, em hipermercados e em shopping center’s mostra como este processo de desqualificação técnica caminha lado a lado com a desvalorização salarial das suas categorias profissionais. Já para não falar da sua crescente precarização, no que aos vínculos contratuais mais diz respeito.

Assim, observar a paisagem social no neoliberalismo e tentar descortinar a composição social da classe trabalhadora passa por ter em atenção estes eixos conceptuais marxianos. Não é partindo da terminologia das administrações das empresas (os chamados “colaboradores”), dos institutos estatais (que tendem a incluir inúmeras novas vagas de jovens trabalhadores dos serviços numa nebulosa classe média) ou de certos produtos académicos de duvidosa origem (onde hoje, pretensamente a sociedade salarial teria dado lugar à sociedade do conhecimento) que poderemos compreender o actual estado da classe trabalhadora. Resgatar o conceito marxiano de classe e aplicá-lo criativamente à realidade social é um dos grandes desafios colocados aos comunistas.

«É tão lindo o meu Partido, é tão lindo o meu Partido

Comunista Português»

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Passam hoje 87 anos da fundação do PCP, o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores. O Partido em que todos os que aspiram a um futuro liberto de todas as formas de exploração e opressão se revêem. O Partido que, desde sempre, esteve ao lado dos trabalhadores, do povo e dos jovens. De um ponto de vista mais pessoal, é o Partido, é a massa de gente maravilhosa e magnífica que me acolheu desde 2001, o Partido onde cresci, onde aprendi imenso, onde compreendi a necessidade de ligar a mão ao intelecto, onde aprendi que a militância é a actividade mais nobre de um ser humano. O Partido, esse grande colectivo humano, onde, pela primeira vez na vida, compreendi que o amor, o esforço militante, a dignidade e a rectidão moral podem encarreirar-se de mãos dadas num único sentido. Por tudo isso, e muito mais, parabéns PCP! Termino com o magnífico poema do Pablo Neruda:

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como sobre uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível, porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.
Pablo Neruda, Ao meu Partido

Nádia Bastos, Limites do imaginário (2006), um dos quadros que podem ver a partir de hoje até 29 de Março em exposição no Púcaros Bar (em frente à Alfândega do Porto).

Quando chegar o momento

de vocês deixarem o mundo,

não tenham preocupação

de terem sido bons.

Isso não é o bastante!

Deixem o mundo bom!

Bertolt Brecht

Nádia Bastos e João Valente Aguiar têm o prazer de vos convidar para a inauguração da exposição de pintura “Re: encontros – uma narrativa das cores” que terá lugar no dia 6 de Março, pelas 22h30 no Púcaros Bar (em frente à Alfândega do Porto). A exposição estará patente até dia 29 de Março. Quadros de Nádia Bastos e textos de João Valente Aguiar. Apareçam ;-)

Tese 5 – A crítica das ideias pequeno-burguesas de “esquerda”

O capítulo III do Manifesto é dedicado na sua totalidade a concepções socialistas da época. Se boa parte delas perderam qualquer significado e presença política na actualidade, importa aplicar algumas das críticas de Marx ao socialismo burguês. Isto é, ao socialismo que parte do legado liberal ou social-democrata e que gostaria de ver consagrado como forma de amortecer os problemas e os conflitos sociais no capitalismo sem, contudo, pôr em causa a dominação social burguesa. Face a um ressuscitar de certas concepções neo-reformistas de uma dita Nova Esquerda, vale a pena relembrar que para todos os sociais-liberais – liberais na prática e socialistas apenas na linguagem – a sociedade capitalista nunca está em causa para eles. «Querem as condições de vida da sociedade moderna sem as lutas e perigos que dela necessariamente decorrem. Querem a sociedade existente expurgada dos elementos que a revolucionam e a dissolvem. Querem a burguesia sem o proletariado» (p.96). Na base de todas estas correntes o que lhes está subjacente não é a crítica ao sistema social e económico vigente mas a eliminação dos efeitos e manifestações mais visíveis das dinâmicas do capital. Querem a reprodução do sistema sem uma manifestação tão evidente e visível dos fenómenos de pobreza, miséria, desigualdades sociais, desemprego, violência, catástrofes naturais, etc. adjacentes ao modo de produção capitalista. Querem eliminar o aparente, sem mudar o essencial. Daí que facilmente embarquem em iniciativas folclóricas de apelo às entidades e instituições do capital e não em iniciativas de massas e que as mobilize contra o sistema. O Live 8 em 2005, por exemplo, e o seu apelo aos poderosos do G8 e do FMI não passa nunca por «tocar na relação de capital e trabalho assalariado» (p.97), onde se alicerça a exploração capitalista e todas as relações sociais, mas «querem apenas melhorar a posição social de todos os sectores que constituem a sociedade, mesmo dos privilegiados. Por isso estão constantemente a apelar sem distinções para a sociedade no seu conjunto, e de preferência para a classe dominante» (p.98), de forma a criar um capitalismo utópico de reconciliação global entre as classes. A crítica da ideologia da classe dominante deve vir sempre acompanhada da crítica das ideologias das classes intermédias.

 

Dali, Ship (1943)

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