Fevereiro 2008


«Os comunistas lutam pela realização de objectivos e de interesses imediatos da classe operária, mas representam no movimento presente também o futuro do movimento.

 Numa palavra, por toda a parte os comunistas apoiam todos os movimentos revolucionários que lutam contra as condições sociais e políticas existentes. Em todos estes movimentos acentuam que a questão da propriedade, seja qual for o seu desenvolvimento ou da forma que ela assuma, é a questão basilar do movimento.

Por fim, os comunistas por toda a parte trabalham para a aliança e o entendimento dos partidos democráticos de todos os países.

Os comunistas recusam-se a esconder os seus pontos de vista e os seus propósitos. Declaram abertamente que os seus objectivos só serão alcançados pela liquidação violenta de toda a ordem social até aqui existente. Que as classes dominantes tremam face a uma revolução comunista. Os proletários nada têm a perder com ela a não ser as suas cadeias. E têm um mundo a ganhar.

Proletários de todos os países, uni-vos!».

Viver na Terra é caro

mas isso inclui uma

viagem grátis ao redor

do sol cada ano.

Anónimo

Magritte, Le fils d’homme

No próximo dia 1 de Março vamos todos lutar pela Liberdade e pela Democracia! Somos muitos muitos mil para continuar Abril!

«A forma ainda rudimentar da luta de classes e a sua própria posição social conjugam-se para os socialistas burgueses crerem que estão muito acima dos antagonismos de classes. Querem melhorar a posição social de todos os sectores que constituem a sociedade, mesmo dos privilegiados. Por isso estão constantemente a apelar sem distinções para a sociedade no seu conjunto, e de preferência para a classe dominante. Basta que se compreenda o seu sistema para reconhecer nele o melhor projecto possível para a melhor sociedade possível. Daí que repudiem toda a acção política, nomeadamente toda a acção revolucionária, e pretendam atingir o seu objectivo por um processo pacífico».

René Magritte

«Uma parte da burguesia deseja remediar  os males sociais para assegurar a estabilidade da sociedade burguesa. Nela se contam economistas, filantropos, humanitários, melhoradores da situação das classes trabalhadoras, organizadores da caridade, protectores dos animais, fundadores de ligas anti-alcoólicas, reformadores ocasionais dos mais variados.

Os burgueses socialistas querem as condições de vida da sociedade moderna sem as lutas e perigos que dela necessariamente decorrem. Querem a sociedade existente expurgada dos elementos que a revolucionam e a dissolvem. Querem a burguesia sem o proletariado. A burguesia, naturalmente, concebe o mundo em que domina como o melhor dos mundos. O socialismo burguês elabora a partir desta concepção consoladora um meio sistema.

Procuram fazer a classe operária perder o gosto por todos os movimentos revolucionários mostrando-lhe que só lhe poderia ser útil uma alteração nas condições materiais de existência, nas condições económicas, e não qualquer alteração política. Por alteração das condições materiais de existência este socialismo não entende de modo nenhum a liquidação das condições burguesas de produção, só possível pela via revolucionária, mas reformas administrativas que tenham lugar dentro destas condições de produção e que portanto não toquem nunca na relação entre capital e trabalho assalariado».

nenhum sono

sem sonhos

de amor

quer esteja eu louco ou frio,

obececado por anjos

ou por máquinas,

não pode ser amargo

não pode ser negado

não pode ser contigo.

Allen Ginsberg

Edouard Vuillard, Interior with hanging lamp, 1899

Retirado do blog Cravo de Abril. Um texto magnífico!

Li a tua carta na qual anuncias a decisão de não te candidatares ao cargo de Presidente do Conselho de Estado de Cuba. Decisão irrevogável, dizes, e explicas porquê.

E eu, que me habituei desde há muito a ouvir-te a palavra exacta no momento exacto, penso que também desta vez assim é.

Mas tenho pena que assim seja. E estou certo de que não sofro sozinho essa pena.

Sabes, melhor do que eu, que a tua doença preocupou – e preocupa – milhões de homens, mulheres e jovens em todo o mundo; milhões de pessoas que te têm como referência marcante das suas vidas; que guardam nas suas memórias, de forma imperecível, o teu contributo para a luta de libertação e emancipação dos povos, o teu exemplo de revolucionário digno, íntegro, vertical, de corpo inteiro.

Sabes, melhor do que eu, que construíste História – que, sem ti, sem a tua intervenção, sem o teu pensamento, sem o teu exemplo de lucidez, de coragem e de dignidade, a História teria sido diferente – e não apenas no que diz respeito a Cuba.

Sabes, melhor do que eu, que, na situação actual, a luta dos comunistas em qualquer parte do mundo é indissociável da experiência da Revolução cubana na perspectiva que, com a palavra exacta, no momento exacto definiste: «Revolução é sentido do momento histórico; é mudar tudo o que deve ser mudado; é igualdade e liberdade plenas; é ser tratado e tratar os demais como seres humanos: é emanciparmo-nos com os nossos próprios esforços; é desafiar as poderosas forças dominantes dentro e fora do âmbito social e nacional; é defender valores nos quais se crê seja qual for o sacrifício necessário; é modéstia, desinteresse, altruísmo, solidariedade e heroísmo; é lutar com audácia, inteligência e realismo; é não mentir jamais, nem violar princípios éticos; é convicção profunda de que não existe força no mundo capaz de esmagar a força da verdade e das ideias. Revolução é unidade, é independência, é lutar pelos nossos sonhos de justiça para Cuba e para o mundo, que é a base do nosso patriotismo, do nosso socialismo e do nosso internacionalismo.»

Sabes, melhor do que eu, que o papel singular que desempenhaste em todo o processo revolucionário cubano, desde Moncada até aos dias de hoje, constitui uma referência, um estímulo, uma fonte de inspiração para os revolucionários de todo o mundo.

Sabes, melhor do que eu, que nesses tempos longínquos de Moncada – em que caracterizaste com rigor cirúrgico o carácter da ditadura de Baptista e definiste a insurreição armada como a forma de luta decisiva para a derrubar – iniciaste uma caminhada revolucionária que ficará na história da humanidade como um dos seus momentos gloriosos.

Sabes, melhor do que eu, que da longínqua madrugada de 26 de Julho de 1953, os revolucionários de todo o mundo recordam com emoção o que disseste – a palavra exacta no momento exacto – aos 135 revolucionários que, contigo, iam dar o primeiro passo para o derrubamento da ditadura: «Camaradas: dentro de algumas horas, venceremos ou seremos vencidos. De qualquer forma, camaradas, o movimento triunfará. Se vencermos, alcançaremos mais depressa as aspirações de Marti; se formos vencidos, o nosso gesto servirá de exemplo para o povo de Cuba e ele empunhará a bandeira e seguirá em frente. O povo apoiar-nos-á no Oriente e em toda a Ilha. Camaradas, aqui, no Oriente, damos o primeiro grito de Pátria ou Morte, Venceremos!.»

Sabes, melhor do que eu, que desse tempo, guardamos nas nossas memórias esse texto notável – certamente a mais bela proclamação de rebeldia alguma vez produzida – que foi a tua defesa perante o tribunal fascista, onde, com a palavra exacta demonstraste, no momento exacto, o carácter ilegal, imoral, reaccionário, da ditadura; e fundamentaste a razão moral e jurídica da violência revolucionária face à situação; e explicaste a opção pelo caminho das armas; e concluíste que chegara o momento de substituir a arma da crítica pela crítica das armas; e proclamaste que «o direito à rebelião contra o despotismo está na própria raiz da nossa existência política»; e invocaste o direito à liquidação dos tiranos – sempre a palavra exacta no momento exacto, olhando de frente os juízes fascistas, convertendo os acusados em acusadores, desmascarando-os frontalmente como lacaios do Poder estabelecido, dizendo-lhes: «Condenai-me, não tem importância, a História me absolverá».

Sabes, melhor do que eu, todos os passos dados rumo à libertação de Cuba: aquele dia 25 de Novembro de 1956 em que, no Granma superlotado (no barco cabiam umas 25 pessoas e iam lá 82) partiste do México «rumo ao nascer do sol» – procurando levar o maior número de armas e não te preocupando, nem tu nem nenhum dos teus companheiros, com as provisões, cuja enunciação minuciosa leio sempre com lágrimas de comoção: «2000 laranjas, dois presuntos partidos às fatias, 48 latas de leite condensado, uma caixa de ovos, cem tabletes de chocolate e quatro quilos de pão».

Sabes, melhor do que eu, que mais importante do que as provisões era, para ti e para os que te acompanhavam a provisão das vossas fortes convicções revolucionárias, da vossa determinação inabalável, da vossa incomensurável coragem – e de uma muito grande confiança no apoio do povo de Cuba à vossa luta.

Sabes, melhor do que eu, que três anos depois, o povo cubano e os revolucionários de todo o mundo festejavam a vitória da Revolução, a tua entrada em Havana, o início da passagem a uma outra fase da longa caminhada.

Sabes, melhor do que eu, dos ataques de que Cuba foi alvo ao longo dos anos por parte dos sucessivos governos dos EUA: o criminoso bloqueio; os actos terroristas contra bens, equipamentos e pessoas, traduzidos nomeadamente na perda de mais de 3500 vidas humanas; a destruição de colheitas; as tentativas de invasão de Cuba; a intensa e feroz campanha mediática que, recorrendo às mais grosseiras provocações, falsidades e calúnias, é suporte essencial de todas as linhas da ofensiva imperialista contra a revolução cubana; enfim, o vale-tudo que caracteriza a prática do imperialismo norte-americano nas suas ofensivas contra os países e povos que, com dignidade, persistem na defesa da sua soberania e independência e, com dignidade, se recusam a enfileirar o rebanho de fiéis cumpridores das ordens emanadas dos bush’s de todas as épocas – um vale-tudo onde não faltaram as centenas de atentados contra a tua vida.

Sabes, melhor do que eu, da resistência vitoriosa da revolução cubana face à ofensiva que se seguiu ao desaparecimento da União Soviética, nesse tempo particularmente difícil para todos os partidos comunistas e de fragilização do movimento comunista internacional, com o desaparecimento ou descaracterização de vários partidos comunistas – mas também um tempo em que muitos outros partidos, como o Partido Comunista de Cuba – e como, deixa-me que te diga com orgulho, o meu Partido Comunista Português – resistiram, e assumiram e reafirmaram a sua identidade comunista, e proclamaram orgulhosamente que fomos, somos e seremos comunistas.

Sabes, melhor do que eu, desse tempo em que os coveiros de serviço proclamavam a morte do comunismo e a vitória definitiva do capitalismo e decretavam o desaparecimento de Cuba socialista: «é uma questão de dias»,: vaticinavam uns; «é uma questão de semanas»: prognosticavam outros; «é uma questão de meses»: garantiam terceiros – e que tu disseste a palavra exacta no momento exacto: resistir! E, assim, tu e o teu povo tornaram possível o que fora decretado como impossível: proclamaram a resistência e venceram.

Sabes, melhor do que eu, como essa vitória levou a esperança e a confiança a milhões de pessoas em todo o planeta, e foi um incentivo à continuação da luta, e mostrou a importância fundamental de lutar seja qual for a situação que se nos depare.

Sabes, melhor do que eu, da solidariedade internacionalista da revolução cubana com a luta de todos os povos do mundo:

- em Angola, onde os heróicos soldados cubanos destroçaram a ofensiva da África do Sul do apartheid conjugada com o imperialismo norte-americano e os fantoches da UNITA; e em vários outros países onde dezenas de milhares de médicos e professores cubanos, revolucionariamente, desenvolvem uma acção de elevado conteúdo civilizacional, levando os cuidados de saúde a milhões de pessoas que jamais haviam visto um médico, ensinando a ler milhões de analfabetos.

Sabes, melhor do que eu, que a ofensiva imperialista contra a revolução cubana vai prosseguir e intensificar-se e que o povo cubano vai continuar a viver momentos difíceis.

Mas – e essa é a questão crucial – sabes, melhor do que ninguém, que a determinação do teu povo de, com coragem e dignidade revolucionárias, continuar a resistir a essa ofensiva e a superar as suas consequências, constitui o dado mais relevante da situação cubana actual. E sabes, melhor do que ninguém, que a Revolução criou gerações de quadros revolucionários que prosseguirão a luta que tu iniciaste.

E por tudo isto, sabes, melhor do que ninguém, que o povo cubano está preparado para, 55 anos depois, repetir em uníssono o grito de Moncada.

E sabendo tudo isto melhor do que ninguém, sabes, camarada Fidel, quanto te devem o Partido, a Revolução, o Povo de Cuba, os revolucionários de todo o Planeta.

Sabes, por isso, que nos fazes muita falta, mas sabes que tudo o que nos deste é parte da nossa força, porque é património inalienável do nosso ideal comunista e da nossa determinação de lutar até à vitória final.

Camarada Fidel: em todo o mundo, milhões de homens, mulheres e jovens sentem como sua a revolução cubana e nela encontram os valores, os princípios, os objectivos da luta que travam todos os dias nos seus próprios países.

Alguém escreveu, que «a grandeza da revolução cubana pertence-nos a todos».

Se assim é – e é – tu, camarada Fidel, artífice maior dessa Revolução, pertences-nos, és nosso.

E serás sempre o nosso «Comandante en Chefe».

Até à vitória final.

A luta continua.

«Se o proletariado na luta contra a burguesia necessariamente se unifica em classe, se por uma revolução se faz classe dominante e como classe dominante suprime pela força as velhas condições de produção, então suprime juntamente com estas condições de produção as condições de existência do antagonismo de classes, das classes em geral e, deste modo, o seu próprio domínio como classe.

No lugar da velha sociedade burguesa com as suas classes e antagonismos de classes surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos».

Edouard Vuillard, Le jardin au Vaucresson

«Poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra».

Seja qual for o teu sonho, começa.

Ousadia tem genialidade, poder e magia.

Goethe

«As ideias dominantes de uma época foram sempre as ideias da classe dominante».

O grande Victor Jara com a belíssima Zamba del Che. A ouvir com atenção!

«Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar o que não têm. Tendo o proletariado primeiro de conquistar o domínio político, de se elevar a classe nacional, de se constituir a si mesmo como nação, ele próprio é ainda nacional, se bem que de modo nenhum no sentido da burguesia. À medida que se suprime a exploração de um indivíduo por outro, suprime-se a exploração de uma nação por outra. Com o desaparecimento do antagonismo das classes no interior da nação desaparece a hostilidade entre as nações».

O que significa que se a luta dos trabalhadores é inseparável do contexto internacional e que, ao mesmo tempo, os seus interesses de classe sobrepõem-se aos interesses de uma determinada nação, também é verdade que a luta do proletariado começa por ser uma luta nacional e que sem a transformação da sociedade do seu país qualquer actuação internacional é uma frase vazia. (Nota minha)

«O comunismo não tira a ninguém o poder de se apropriar de produtos sociais; tira, sim, o poder de, com esta apropriação, subjugar a si o trabalho alheio. Há quem tenha objectado que com a supressão da propriedade privada cessaria toda a actividade e se generalizaria a preguiça colectiva. Seguindo este princípio, então há muito que a sociedade burguesa teria perecido de indolência, pois os que nela trabalham não ganham e os que nela ganham não trabalham».

lua mínima

a tarde minguante

abre um sorriso.

Alonso Alvarez

Ton Schulten

Retirado do jornal Avante.

Com a Marcha «Liberdade e Democracia», o PCP reafirma que não aceita que se aprofunde o caminho de destruição do regime democrático. Sendo uma iniciativa do PCP, a Marcha é aberta à participação de todos os que, preocupados com a situação do País, reclamam um futuro de liberdade, soberania, democracia e progresso social.

1.

Porque não podemos aceitar a violação diária de importantes direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos, expressos na atitude intimidatória e persecutória do Governo PS sobre quem protesta e luta pelos seus direitos, sejam eles dirigentes sindicais, trabalhadores da administração pública, estudantes ou jornalistas.

2.

Porque não admitimos que por via de leis anti-democráticas, como a Lei dos Partidos ou a Lei do Financiamento dos Partidos se procure condicionar o direito de livre organização, intervenção e actividade partidária, ou através da nova lei eleitoral para as autarquias locais impor maiorias absolutas nas Câmaras Municipais que o Povo não deu nas urnas.

3.

Porque a democracia não pode ser impedida dentro das empresas, perseguindo a sindicalização e a actividade sindical, limitando o direito à greve, ameaçando com o despedimento e a redução de direitos todos os que lutam por melhores condições de vida.

4.

Porque as injustiças e desigualdades sociais são cada vez maiores e confirmam uma política de submissão do poder político ao poder económico, onde os lucros do capital contrastam com os baixos salários, reformas e pensões.

5.

Porque a democracia é também composta de direitos sociais como o acesso à saúde, à educação, à cultura ou à justiça cada vez mais negados à larga maioria da população.

6.

Porque não há democracia sem participação e a vida hoje reclama uma decidida intervenção em defesa dos valores e das conquistas de Abril, fazendo frente ao avanço de políticas, práticas e concepções que corroem a vida do País e ferem a dignidade do nosso Povo.

«A partir do momento em que o trabalho não possa ser transformado em capital, em dinheiro, em rendimento – em suma, num poder social monopolizável – isto é, a partir do momento em que a propriedade pessoal já não possa transformar-se em propriedade burguesa, a partir desse momento declarais que a pessoa está suprimida. Confessais, por conseguinte, que por pessoa não entendeis senão o burguês, o possuidor burguês. Ora esta pessoa tem certamente de ser suprimida».

luar na relva

vento insone

tira o sono das flores.

Alonso Alvarez

Ton Schulten

«Só queremos suprimir o carácter miserável desta apropriação, em função do qual o operário só vive para aumentar o capital, só vive enquanto o exige o interesse da classe dominante. Por liberdade a burguesia entende, no seio das condições presentes de produção, o comércio livre, a compra e venda livres. No fundo, horrorizais-vos por nós comunistas querermos suprimir a propriedade privada. Mas nesta vossa sociedade a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; o facto é que ela existe precisamente porque não existe para esses nove décimos».

Renoir, Boating on the Seine

«O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a moderna propriedade burguesa é a expressão última e mais completa da produção e apropriação dos produtos que assenta em antagonismos de classes, na exploração de uma classe (maioritária) por outra classe (minoritária). Neste sentido os comunistas podem resumir a sua teoria nesta única expressão: supressão da propriedade privada».

Renoir, Moulin Galette

Ter coragem de olhar

pela última vez

e mentir calmamente:

quem sabe?… talvez…

como se a última vez

ficasse para outra vez.

Aldir Blanc

«Stalinegrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandescentes! As belas cidades do mundo (…) entregues sem luta, aprendem contigo o gesto do fogo. Também elas podem esperar. Stalinegrado, quantas esperanças!»

Carlos Drummond de Andrade, Carta a Stalinegrado

«As proposições teóricas dos comunistas não assentam de modo nenhum em ideias ou em princípios inventados ou descobertos por este ou aquele reformador do mundo.

São tão-somente expressões gerais de circunstâncias concretas de uma luta de classes que existe, de um movimento histórico que se desenrola diante dos nossos olhos».

Lembra aquele beijo

corpo alma e mente?

pois eu esqueci completamente.

Alice Ruiz

«Qual é, de um modo geral, a relação dos comunistas com os proletários? Os comunistas não são um partido separado face aos outros partidos operários. Não têm quaisquer interesses separados dos interesses de todo o proletariado. Não propõem nenhuns princípios particulares segundo os quais pretendem moldar o movimento proletário. Os comunistas diferenciam-se dos demais partido proletários apenas porque, por um lado, nas diferentes lutas nacionais dos proletários acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade do proletariado na sua totalidade, e porque, por outro lado, nas várias fases de desenvolvimento que a luta entre o proletariado e a burguesia percorre, representam sempre o interesse do movimento global.

Os comunistas são, pois, pela prática, o sector mais resoluto dos partidos operários de todos os países, o que maior impulso lhes dá; pela teoria, excedem a restante massa do proletariado no conhecimento das condições, do andamento e dos resultados gerais do movimento proletário.

O objectivo imediato dos comunistas é o mesmo de todos os demais partidos proletários: formação do proletariado em classe, liquidação do domínio da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado».

Carlos Puebla, Hasta siempre, comandante

«Durante muitos anos, mesmo entre pessoas de esquerda, havia um certo constrangimento em falar de Staline, como se isso demonstrasse uma desactualização cultural e política lastimável.

Jamais me conformei com isso. Sempre manifestei o meu apreço pelo grande herói de Stalinegrado, a figura máxima da luta contra o nazismo.

Um dia, os que se recusavam a discutir Staline vão perceber como estavam enganados, iludidos pela campanha odiosa movida pelas forças mais reaccionárias».

Palavras de Óscar Niemeyer na contra-capa da versão brasileira do livro “Staline – um outro olhar” de Ludo Martens. Palavras que chamam a atenção para a necessidade de uma reflexão rigorosa sobre Staline e sem os fetichismos criados pelos media do grande capital.

«Todos os movimentos políticos anteriores foram movimentos de minorias ou no interesse de minorias. O movimento proletário é o movimento independente da maioria imensa no interesse da imensa maioria. O proletariado, o estrato inferior da sociedade actual, não pode sublevar-se, não pode erguer-se, sem fazer ir pelos ares a superestrutura completa dos estratos que formam a sociedade actual. Pela forma, embora não pelo conteúdo, a luta do proletariado contra a burguesia começa por ser uma luta nacional. O proletariado de cada um dos países tem naturalmente de começar por acabar com a sua própria burguesia».

Em 15 de Fevereiro de 1931, na sequência da reorganização de 1929, nascia o Avante!
A criação do órgão central do Partido Comunista Português inseria-se no conjunto de medidas e orientações políticas e partidárias definidas na Conferência de Abril e que viriam a constituir um primeiro e importante passo para fazer do PCP um partido revolucionário marxista-leninista, capaz de lutar nas difíceis condições da clandestinidade.
Depois, seguiram-se mais de quatro décadas de uma epopeia singular – uma caminhada feita de êxitos, de derrotas e logo de novos êxitos: a tipografia que começa a funcionar e a imprimir o Avante!; a polícia fascista que detecta e assalta a tipografia, prende os tipógrafos, impede a saída do Jornal; a nova tipografia logo montada – ou montada previamente – noutro local, e outra vez o Avante! nas fábricas, nas escolas, nos campos, levando o incentivo à luta e a opinião, a análise, as palavras de ordem do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores – cumprindo o seu papel de voz dos que não tinham voz. Uma caminhada que deixa atrás de si um límpido rasto de dedicações, entregas, coragens e dignidades nascidas da confiança no ideal e no projecto comunista.
Nunca é demais sublinhar o facto notável que é a publicação regular do Avante!, sem interrupções – e sempre composto e impresso no interior do País – desde esse momento fulcral para a construção do PCP com as suas características actuais que foi a reorganização de 1940/1941, até ao 25 de Abril de 1974 – caso único na imprensa revolucionária clandestina em todo o mundo.

Da mesma forma que é mister sublinhar o papel desempenhado pelo órgão central do PCP no período subsequente ao 25 de Abril.
Primeiro, enquanto porta-voz do poderoso movimento operário e popular que constituiu a alavanca fundamental no processo de construção da democracia de Abril – uma democracia económica, social, política, cultural, amplamente participada e tendo a independência e a soberania do País como referências essenciais.
Depois, e até agora, ocupando um lugar insubstituível no desmascaramento da natureza e dos objectivos da contra-revolução e dos seus agentes nacionais e internacionais – e sempre, sempre incitando à luta, mostrando que a luta vale a pena mesmo quando os seus resultados não surgem de imediato, mostrando que, como amiúde refere o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, quando se luta, nem sempre se ganha, mas quando não se luta, perde-se sempre.
De sublinhar, ainda, o papel desempenhado pelo Avante!, ao longo dos seus 77 anos de existência, no que respeita à vida e à actividade partidárias, quer informando sobre a actividade, as posições e as orientações partidárias, quer dando o seu contributo para o reforço e a defesa do Partido e para a compreensão da sua relação dialéctica – e, igualmente, o seu papel no combate à acção dos grupos fraccionistas que, a partir de 1987, tentaram a liquidação do partido.
De sublinhar, finalmente, que da mesma forma que não é possível fazer a história de Portugal sob o regime fascista sem consultar o Avante!, só consultando-o é possível escrever com rigor sobre a revolução de Abril e sobre a contra-revolução que se lhe sucedeu.

Comemoramos os 77 anos de vida e de luta do Avante! num tempo carregado de ameaças, perigos e dificuldades muito concretas para os trabalhadores, o povo e o País – e que é, por isso mesmo, um tempo que nos coloca incontornáveis exigências de intervenção.
A ofensiva contra o regime democrático – levada a cabo por sucessivos governos de política de direita ao serviço do grande capital ao longo dos últimos trinta e dois anos – tem desferido significativas machadadas em todas as conquistas alcançadas pelos trabalhadores e pelo povo através de muitas lutas.
Com o actual Governo, essa ofensiva tem vindo a assumir expressões de crescente gravidade em matéria de direitos dos trabalhadores e das populações; de agravamento das condições de vida da maioria dos portugueses; de entrega ao capitalismo internacional da soberania e da independência nacionais; de empobrecimento do conteúdo democrático do regime – sempre numa prática de desrespeito e desprezo pela Constituição da República Portuguesa.
Nessa cruzada do Governo do PS/José Sócrates, o ataque às liberdades, direitos e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos assume relevância e gravidade crescentes.
Como o Avante! tem demonstrado com exemplos concretos, incontestáveis e incontestados, as liberdades de expressão, de imprensa, de actividade sindical e associativa, de propaganda, de organização e funcionamento interno partidários, são diariamente postas em causa por um Governo que, afrontando a Lei Fundamental do País, não olha a meios para alcançar os fins que os interesses do grande capital exigem e não hesita em recorrer a métodos persecutórios e repressivos que se julgavam definitivamente erradicados da sociedade portuguesa.
É neste contexto que surge a Marcha Liberdade e Democracia que o PCP convocou para o próximo dia 1 de Março – convocação que se estende a todos os que, não sendo comunistas, se identificam com os valores e princípios democráticos e deles não querem prescindir.
Porque é preciso dizer basta! a esta violação sistemática das liberdades. Porque é preciso dizer basta! a este processo de degradação do regime democrático.
Porque é preciso restituir aos trabalhadores, aos cidadãos, ao povo português a alegria da liberdade e da dignidade que fizeram de Abril o momento mais luminoso da nossa história colectiva.

Editorial do jornal Avante desta semana.

«A proleta miserável, o lumpenproletariado, essa podridão passiva dos estratos inferiores da sociedade, é aqui e além arrastada para a acção por uma revolução proletária, e pela sua situação estará mais disposta a deixar-se enredar em manobras reaccionárias».

No armário do meu quarto escondo

de tempo e traça meu vestido

estampado em fundo preto.

Eu o quis com paixão

e o vesti como um rito,

meu vestido de amante…

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, volatiliza-se a memória guardada:

eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.

De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado

Henri Matisse

«Ao princípio lutam os operários isoladamente, em seguida os operários de uma fábrica, depois os operários de um ramo de trabalho numa localidade contra o burguês individual que os explora directamente. Dirigem os seus ataques não só contra as condições burguesas da produção, dirigem-nos contra os próprios instrumentos de produção; destroem as mercadorias estrangeiras concorrentes, destroçam as máquinas, deitam fogo às fábricas, procuram recuperar a posição desaparecida do trabalhador medieval.

Nesta fase os operários formam uma massa dispersa por todo o país e dividida pela concorrência. A solidariedade das massas operárias não é ainda a consequência da sua própria união, mas a consequência da união da burguesia, a qual, para atingir os objectivos políticos que lhe são próprios, tem de pôr em movimento todo o proletariado e por enquanto ainda o consegue. Nesta fase os proletários combatem, pois, não os seus inimigos, mas os inimigos dos seus inimigos, os restos da monarquia absoluta, os senhores da terra, os burgueses não industriais, a baixa burguesia. Todo o processo histórico está, assim, concentrado nas mãos da burguesia; todas as vitórias assim alcançadas são vitórias da burguesia.

Mas com o desenvolvimento da indústria o proletariado não se multiplica apenas; concentra-se em massas maiores, cresce a sua força, e ele sente-a mais. Os interesses, as condições de vida no interior do proletariado tornam-se cada vez mais semelhantes, ao mesmo tempo que a maquinaria vai obliterando cada vez mais as diferenças do trabalho e quase por toda a parte faz a descer o salário a um mesmo nível baixo.

As colisões entre o operário isolado e o burguês isolado tomam cada vez mais o carácter de colisões de duas classes. Os operários começam a formar coligações contra os burgueses: reúnem-se em defesa do seu salário.

De tempos a tempos vencem os operários, mas só transitoriamente. O resultado real das suas lutas não é o êxito imediato, é a união dos operários que cada vez mais se propaga. Fomentam-na os meios crescentes de comunicação, criados pela grande indústria, que põem os operários das diferentes localidades em ligação uns com os outros. E só é necessária esta ligação para centralizar as muitas lutas locais, por toda a parte com o mesmo carácter, numa luta nacional, numa luta de classes. Mas todas as lutas de classes são lutas políticas.

Esta organização dos proletários em classe, e deste modo em partido político, é rompida a cada momento pela concorrência entre os próprios operários. Mas nasce sempre outra vez, mais forte, mais sólida, mais poderosa».

 

Matisse, A alegria de viver

 

Este filme, com Tommy Lee Jones no principal papel, trabalha a narrativa de guerra de uma forma esteticamente interessante. A guerra no Iraque é vista a partir dos olhos de um polícia militar reformado em busca do seu filho soldado recém-chegado do terreno militar. O mais interessante do filme vem precisamente no seguimento dessa perspectiva da guerra a partir de baixo, a partir de um ponto de vista individual a olhar (de baixo para cima) para um Estado que não compreende, para uma máquina estatal imperialista que usa os seus cidadãos como carne para canhão. As contínuas impossibilidades de fazer chegar às altas patentes do Estado e do Exército a investigação do filho desaparecido depois do regresso do serviço militar no Iraque, mostra a vulnerabilidade completa do indivíduo perante um Estado opressor e criminoso. Por outro lado, o filme permite-nos visualizar como uma guerra injusta - e que se sustenta no primitivismo ideológico de que os soldados norte-americanos estariam no Iraque para levar a democracia – destrói a personalidade de quem nela participa no terreno. No fundo, uma guerra injustificada e criminosa não faz dos soldados (na esmagadora maioria, filhos de trabalhadores) carne para canhão apenas por via da sua morte no cenário de guerra. O uso de vidas humanas de jovens como carne para canhão expressa-se igualmente na forma como a sua humanidade vai sendo subvertida e engolida pelo rolo compressor da máquina de guerra imperialista. A este título, refira-se a cena, quase no final do filme, de um soldado de origem mexicana, quando este justifica o atropelamento de uma criança iraquiana por um carro de combate dizendo que mataram um cão: “para mim isso de ter atropelado um miúdo é treta! Para mim, aquilo era um cão! Apenas um cão (e começa a verter lágrimas)!”.

O filme peca por relacionar pouco a guerra com os seus fundamentos políticos e económicos de classe. O questionamento da mecânica imperialista dos EUA é pouco aprofundada e só ao de leve encontramos referências a Bush e à sua Administração. Contudo, a abordagem realizada coloca a nú duas facetas altamente negativas do imperialismo para a Humanidade acima referidas: 1) a vulnerabilidade do indivíduo não-pertencente às classes dominantes perante a estrutura estatal imperialista, uma estrutura que não percebe o seu funcionamento interno e que não consegue superar por via do enfrentamento individual; 2) a destruição da personalidade dos soldados pelo rolo compressor da guerra.

 Um bom filme e com aspectos a reter pelo espectador mais atento (16/20).

«A indústria moderna transformou a pequena oficina do mestre patriarcal na grande fábrica do capitalista industrial. Massas de operários, apinhadas na fábrica, são organizadas como exércitos. São colocados, como soldados rasos industriais, sob a vigilância de uma hierarquia completa de sargentos e oficiais. Não são apenas servidores da classe burguesa, do Estado burguês; dia a dia, hora a hora, são feitos servidores da máquina, do capataz, e sobretudo dos burgueses considerados individualmente. Este despotismo é tanto mais mesquinho, mais odioso, mais exasperante, quanto mais abertamente proclama ser o lucro o seu objectivo.

Terminada a exploração do operário na produção, na medida em que recebe o seu salário em dinheiro, logo lhe caem em cima os outros sectores da burguesia, o senhorio, o merceeiro, o penhorista, etc.».

A beleza existe em tudo: tanto no bem como no mal.

Mas somente os artistas e os poetas sabem encontrá-la.

Charles Chaplin

Retirado do blog “Um tal de blog“.

A entrevista de Alegre ao Público é constituída por duas páginas de imenso irrealismo, só comparável ao do próprio primeiro ministro. Alegre fala do Governo como se não fosse deputado eleito pelo partido que suporta a maioria, manifesta preocupações e sentimentos e tece considerações ao melhor estilo de Marinho Pinto – mas menos efusivo -, através de exercícios demagogia pura e dura. Até podia ser atenuado se Alegre não tivesse faltado, por exemplo, à votação do Orçamento de Estado de 2006, ou se não tivesse votado a favor do Orçamento para 2007.

A suposta oposição de Alegre ao Governo faz-se através da cobertura às decisões decisões de Sócrates, mas usando declarações de voto, onde alega, várias vezes, que “sendo eleito em listas partidárias, há situações em que, salvo circunstâncias excepcionais, não deve quebrar o sentido de voto do seu Grupo Parlamentar: programa de governo, moção de confiança e moção de censura, Orçamento de Estado”.

Ou seja, não se deve quebrar o sentido de voto nos diplomas que regem as políticas, mas censuram-se as políticas.

Revela, sobre a remodelação – de cargos – que não criticou pessoas, mas sim políticas. Ora, a actual ministra, que integrou a comissão de honra da candidatura de Alegre às presidenciais, disse desde logo que o que está é para manter. Ora, ou podemos então prever que vem aí outra remodelação, ou a ministra entrou mal e parece que vai mesmo ter de mudar de políticas.

Depois dos 1.130.000 votos que Manuel Alegre conseguiu nas presidenciais, passaremos então a contar com 1.129.999, porque a ministra não deve estar de acordo com o candidato.

«A burguesia não se limitou a forjar as armas que lhe trazem a morte; também gerou os homens que vão usar estas armas – os modernos operários. E na mesma medida em que se desenvolve a burguesia, isto é, o capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos modernos trabalhadores, os quais só vivem enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto o seu trabalho aumentar o capital. Estes operários que têm de se vender a retalho, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio e estão, assim, igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência e a todas as flutuações do mercado».

Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

também mais nada, só te olhar, enquanto

a realidade é simples, e isto apenas.

Mário de Andrade

«E como é que a burguesia supera as crises? Por um lado, pela destruição forçada de uma quantidade de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de mercados velhos. De que modo então? Preparando crises mais gerais e mais graves e reduzindo os meios para se prevenir contra elas».

Di Cavalcanti, Mulata

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