Duas lições…

Do processo revolucionário de Fevereiro a Outubro de 1917 (sabendo que ele não terminou no momento da tomada do poder de Estado), podem-se tirar duas breves ilações com um impacto político relevante.

1) Na esteira de Marx, Lenine repetiu inúmeras vezes que a insurreição é uma arte. Ou seja, a actividade política dos comunistas não se efectua no meio da fraseologia inconsequente, estéril e vazia (esquerdismo), no envolvimento irreflectido em acções em que supostamente a revolução estaria ao virar da esquina, desconsiderando o contexto de correlação de forças entre as classes e os partidos políticos que as representam (aventureirismo), da mera abstracção e discussão teórica (academismo) ou no sacrificar das massas populares e da classe trabalhadora às mãos da classe dominante (reformismo e conciliação de classe). Assim, a insurreição obedece a um estudo objectivo da realidade, quer dizer, dos factores estruturais – situação económica, grau de organização (ou desorganização) do Estado, nível de eficácia das ideologias dominantes nas massas, posicionamento geopolítico e económico de um país na cena internacional – bem como de factores conjunturais – maior ou menor património de luta, existência ou não de uma organização política e/ou social de vanguarda e o tipo de influência destas junto das massas, nível de organização, mobilização e consciencialização da classe trabalhadora, estado da relação de forças entre a burguesia, o proletariado e respectivos aliados de ambas as classes fundamentais. Ao mesmo tempo, a insurreição é um assunto delicado e sério e que não pode nunca ser tratado com leviandade pelos comunistas. Ou seja, nem como uma impossibilidade prática ad eternum, como defendem os reformistas, nem como uma possibilidade aberta a qualquer momento (esquerdismo). Concretizando: Lenine inspirando-se em Marx enumerou, não como receituário fixista mas como um guia para a acção, as regras mais importantes da arte da insurreição e que explicam boa parte do que se passou no dia 25 de Outubro de 1917:

«1) Nunca jogar com a insurreição e, uma vez começada, saber firmemente que é preciso ir até ao fim.2) É necessário concentrar no lugar decisivo, e no momento decisivo, uma grande superioridade de forças, pois de outro modo o inimigo, possuindo melhor preparação e organização, aniquilará os insurrectos.3) Uma vez começada a insurreição, é preciso agir com a maior decisão e passar obrigatória e incondicionalmente à ofensiva. A defensiva é a morte da insurreição armada.4) É preciso esforçar-se para apanhar o inimigo de surpresa, captar o momento em que as suas tropas estão ainda dispersas.5) É preciso obter diariamente êxitos ainda que pequenos, mantendo a todo o custo a superioridade moral» (Lenine, 1978e, p.368-369).

Escusado será reafirmar que a aplicabilidade destes princípios varia com a situação nacional de cada contexto revolucionário, e que é apenas aplicável para cenários em que a insurreição é uma possibilidade histórica e política real, portanto ao alcance directo dos revolucionários, e não a todo e qualquer momento da conjuntura da luta de classes.

2) Como qualquer comunista tem conhecimento, é na luta que os militantes e quadros se formam política, ideológica e organizativamente. A luta, seja pequena ou grande, económica ou política, é o meio mais capaz de formação dos militantes comunistas. Contudo, tal método de aprendizagem política não se circunscreve aos comunistas mas tem uma igual importância para as massas e para os trabalhadores. Se a luta em tempos de “acalmia social” é uma escola de vida e de consciencialização, é-o ainda mais em períodos revolucionários: «durante a revolução, milhões e dezenas de milhões de homens aprendem em cada semana mais do que num ano de vida habitual e sonolenta. Pois numa viragem brusca da vida de todo um povo vê-se com especial clareza quais são as classes do povo que perseguem tais ou tais objectivos, de que forças dispõem, com que meios actuam» (Lenine, 1978c, p.139). Portanto, o princípio marxista de ver o povo como sujeito da história não é um qualquer fetichismo ideológico mas uma realidade concreta e válida. Porque se o povo e os trabalhadores lutam, agem e se mobilizam é porque detrás desse padrão de comportamento, existe todo um património de aprendizagem política no terreno concreto e prático da luta de classes.