O processo revolucionário de Março/Abril até à vitória em Outubro
No dia 20 de Abril de 1917 o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Miliukov, confirmava a decisão do governo provisório em respeitar todos os tratados concluídos pelo governo do czar, ou seja, continuar com a presença na Rússia na guerra imperialista. No dia seguinte o operariado de Petrogrado realiza uma manifestação de protesto conseguindo juntar 100 mil operários e soldados. Face à contestação operária o governo provisório recua tacticamente. Demite Miliukov e coopta vários membros do Comité Executivo Central dos Sovietes: Skobelev, Tchernov, Tsereteli. Era a entrada de ministros dos partidos conciliadores no governo provisório que procurava a todo o custo derrubar o poder paralelo dos sovietes operários e camponeses. Entretanto, Kerensky muda de pasta governamental e passa a Ministro da Guerra e da Marinha. O novo executivo, dada a sua natureza de classe, em nada correspondia aos anseios revolucionários das massas:
«Vejamos o que procuravam alcançar as massas de operários e camponeses ao realizar a revolução. Que esperavam elas da revolução? É sabido que esperavam liberdade, paz, pão e terra. E o que vemos hoje?O povo quer a paz. Mas o governo reiniciou a guerra de conquista na base dos mesmos tratados secretos estabelecidos pelo ex-czar Nicolau II com os capitalistas ingleses e franceses, no interesse da pilhagem de outros povos pelos capitalistas russos.Não há pão. A fome aproxima-se novamente. Toda a gente vê que os capitalistas e os ricos obtêm lucros inauditos com os preços altos e absolutamente nada se faz para um controlo sério da produção e da distribuição dos produtos pelos operários. Os capitalistas tornam-se cada vez mais insolentes, põem os operários na rua, e isto no momento em que o povo sofre a falta de víveres e de meios de subsistência.Numa longa série de congressos, a imensa maioria dos camponeses declarou alta e claramente que considera a propriedade latifundiária da terra como uma injustiça e um roubo. E o governo provisório continua há meses a enganar os camponeses e a enche-los de promessas e adiamentos» (Lenine, 1978c, p.139-140).
O prolongamento desta situação iria resultar na convocação de uma manifestação por parte do Partido Bolchevique para o dia 10 de Junho. A esta convocatória responderia o CEC e o governo provisório com a proibição de manifestações de rua durante 3 dias, inviabilizando assim a manifestação. O Partido Bolchevique cancela a manifestação. No dia 12 a direcção socialista-revolucionária/menchevique do Congresso dos Sovietes aprovou uma resolução acerca da realização de uma manifestação para o dia 18. O objectivo era claro: ganhar as massas para o lado do governo provisório e passar a imagem de que a população estava de acordo com os propósitos do governo em continuar com a guerra imperialista. No dia da manifestação (18 de Junho) participaram 500 mil operários e soldados de Petrogrado. Contudo, a maioria dos participantes desfilou ao som das palavras de ordem do Partido Bolchevique contra a guerra imperialista o que constituiu um êxito retumbante do Partido de Lenine, evidenciando a sua crescente influência e prestígio junto das massas.
A esta grande iniciativa das massas operárias da capital seguiu-se a organização de uma nova manifestação para os dias 3 e 4 de Julho. As massas predispunham-se a realizar um levantamento armado contra o governo provisório. Mais de 500 mil operários saíram às ruas para preparar um ataque. Os manifestantes exigiam que o CEC dos Sovietes tomasse o poder nas suas mãos e o entregasse ao povo. Ao mesmo tempo, o Partido Bolchevique compreendeu que o sucesso de tal iniciativa não estava de modo algum assegurado e empreendeu esforços para que a manifestação decorresse de forma pacífica e ordeira. Assim aconteceu. Mesmo assim o governo provisório, com o consentimento do CEC socialista-revolucionário e menchevique, lançou destacamentos de soldados e cossacos contra-revolucionários que abriram fogo sobre os manifestantes. Iniciou-se a repressão aberta da luta operária e a perseguição aos bolcheviques. Estes vêem-se obrigados a passar à clandestinidade.
Porém, aumentava o fosso entre os interesses e aspirações do proletariado russo e da burguesia e da burguesia, dos operários organizados nos Sovietes e da burguesia agrupada em torno do governo de Kerensky. Os desaires militares sucediam-se, a desarticulação do exército prosseguia e a contestação operária ameaçava permanentemente o poder político burguês. A incapacidade de o governo provisório colocar um ponto final no clima de instabilidade social levou à saída do partido democrata-constitucionalista (o partido da burguesia) do governo provisório, deixando Kerensky e os partidos socialista-revolucionário e menchevique à sua mercê. É nesta altura – Agosto de 1917 – que se dá a contra-insurreição de Kornilov, um levantamento armado contra-revolucionário da burguesia e dos latifundiários feudais. A classe dirigente tinha-se unido e a única solução para salvaguardar o poder político estatal era, portanto, sair do governo provisório e realizar um putsch armado que derrubasse de vez não só o governo provisório mas, sobretudo, que assegurasse uma repressão impiedosa do operariado e do campesinato russos. Kerensky sempre foi conivente com a preparação do golpe de Kornilov, mas quando se apercebeu que não iria ser poupado denunciou Kornilov como amotinado contra o governo provisório. O Partido Bolchevique, por sua vez, iria em conjunto com o proletariado de Petrogrado erguer barricadas contra a revanche de Kornilov e conseguiram derrotá-la. De referir que grande parte dos cossacos de Kornilov recusou combater contra a Guarda Vermelha, o que proporcionou uma vitória rápida aos operários e soldados de Petrogrado.
Deste acontecimento resultou um conjunto de efeitos. O primeiro consistiu numa derrota em toda a linha da burguesia e da aristocracia russas. Um segundo efeito correspondeu ao isolamento completo do governo de Kerensky. Com as classes dominantes desmoralizadas e temporariamente sem saber o que fazer (estado de letargia que durou pouco tempo pois em meados de 1918, com amplo apoio e participação do imperialismo internacional, iniciaram a sangrenta Guerra Civil de 1918-21), o exército regular de rastos, a formação e proliferação de milícias populares armadas, a Kerensky só lhe restava resistir como pudesse e ganhar tempo até que os alemães entrassem na Rússia e desbaratassem as hostes bolcheviques e os sovietes de operários, soldados e camponeses. Riga, actual capital da Letónia, foi entregue ao governo alemão e Petrogrado estava em vias disso segundo o que mais tarde se veio a tomar conhecimento através da publicação dos tratados secretos estabelecidos entre Kerensky e o governo alemão. A Revolução de 25 de Outubro, com a tomada do Palácio de Inverno, impediu que a carnificina sobre a revolta operária tivesse ocorrido. Um terceiro efeito teve a ver com a enorme ascensão do Partido Bolchevique junto das massas. Prestígio e influência expressas na vitória esmagadora dos bolcheviques nas eleições para os sovietes de Moscovo e Petrogrado, as duas maiores cidades do país.
Neste quadro em que o Partido Bolchevique se tornou a força dirigente e maioritária na condução da luta popular e onde, em simultâneo, a disposição do proletariado em tomar o poder de Estado era bem vincada e afirmativamente evidenciada na desconfiança relativamente aos mencheviques e aos socialistas-revolucionários, a saída foi a insurreição popular de 25 de Outubro e a tomada do Palácio de Inverno. Esse dia ficou marcado na História da humanidade a letras de ouro, e expressou, de um lado, a luta das massas populares contra as classes dominantes e, de outro lado, a abnegação dos revolucionários bolcheviques, com Lenine à cabeça, a sua fidelidade ao marxismo (o que é sinónimo de fidelidade aos interesses do povo explorado e oprimido), a sua coerência de princípios e a sua maleabilidade táctica que lhes permitiu ajustar a orientação e actuação do Partido aos diversificados andamentos e movimentos, às curvas e contracurvas do processo revolucionário.
Junho 11, 2007 at 10:34 pm
Só para dizer que ainda hei-de ler ‘as vinhas da aira’
mas por agora fico-me pelo ‘bairro da lata’ deste mesmo autor.
Junho 12, 2007 at 2:21 am
Segundo sei “Bairro de lata” é um conjunto de papéis manuscritos inéditos do Steinbeck e só recentemente descobertos.
Lê “As Vinhas da Ira”. Vais ver que vale a pena
Novembro 30, 2007 at 3:14 am
[...] Outro que descreve o processo revolucionário, de Fevereiro a Outubro de 1917,de João Aguiar, do blogue as Vinhas da Ira. Um texto de John Reed, escrito entre 1918 e 1919, e traduzido em português, sobre o funcionamento [...]
Junho 6, 2008 at 12:56 pm
concordo com a vossa resoluçáo
Julho 13, 2008 at 5:40 am
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